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Declínio ou adaptação? O Ocidente perante a sua própria consciência moral

 Ao longo dos três textos anteriores analisámos diferentes expressões de um mesmo fenómeno. Vimos como a passagem da moral de Pocahontas para a moral de Greta marcou a transição entre uma culpa que se encerrava e uma culpa que se tornou permanente. Vimos como a herança cristã moldou uma civilização orientada para a confissão e o arrependimento, em contraste com outras arquiteturas morais centradas na vitória e na legitimidade do poder. E analisámos como o wokismo surge como continuação dessa herança, privada porém do seu mecanismo de redenção. A questão que se impõe é inevitável: o que estamos a viver é o declínio do Ocidente — ou apenas uma tentativa imperfeita de adaptação a um mundo em rápida transformação? A tentação do discurso do declínio Sempre que uma civilização perde centralidade, surge a narrativa do fim. Roma teve os seus profetas do colapso. O Império Otomano falou durante séculos do “homem doente da Europa”. O mesmo aconteceu com a Europa após a Primeira Guerra Mundia...
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Wokismo: cristianismo sem Cristo na política contemporânea

Nos dois textos anteriores analisámos duas tensões centrais da civilização ocidental. No primeiro, vimos como a passagem da moral de Pocahontas para a moral de Greta marcou a transição entre uma culpa que se encerrava e uma culpa que nunca termina. No segundo, analisámos como o cristianismo legou ao Ocidente uma cultura da confissão e do arrependimento, enquanto o Islão desenvolveu uma relação diferente entre poder, vitória e legitimidade. O wokismo surge precisamente neste cruzamento. Não como rutura com o Ocidente, mas como consequência direta das suas próprias fundações morais — privadas, porém, do seu elemento moderador. Uma moral herdada, não inventada O wokismo não inventou uma nova ética. Herdou-a. Da tradição cristã conserva quase tudo desde: (A) a distinção entre inocente e culpado, (B) a centralidade da vítima, (C) a ideia de responsabilidade moral e (D) a exigência de reconhecimento público do erro. O que desapareceu foram os mecanismos que encerravam o processo moral como o...

O mito do objeto que “absorvia energia do Sol”

 De tempos a tempos circulam vídeos que mostram uma esfera escura junto à superfície solar, aparentemente ligada por um filamento luminoso. A imagem é fascinante: o Sol, fonte de toda a energia do sistema, e um corpo que parece “alimentar-se” dele, como se estivesse a reabastecer-se antes de seguir viagem. A hipótese tem um apelo óbvio — mas nenhum fundamento físico. O que as observações mostram, na verdade, são estruturas solares conhecidas como  proeminências : enormes loops de plasma guiados pelos campos magnéticos da coroa. Quando vistas de certos ângulos, essas proeminências dão a ilusão de uma “ligação” entre o Sol e um objeto externo. O aparente “tubo” de transferência é, na realidade, uma linha de campo magnético carregada de partículas. Nada ali é sólido, nem há movimento coordenado de matéria para fora do Sol. Mesmo assim, a ideia de um objeto a “extrair energia” merece ser analisada, porque permite compreender melhor os limites impostos pela própria física. O silênc...

Cristo e Maomé: duas arquiteturas morais perante o poder, a culpa e a história

Há uma diferença profunda — e raramente discutida sem caricatura — entre a forma como o Ocidente olha para a sua história e a forma como outras civilizações a encaram.  Essa diferença não nasce da modernidade, nem do colonialismo, nem da globalização. Nasce muito antes , nas figuras fundadoras que moldaram as respetivas arquiteturas morais. Para o bem e para o mal, o Ocidente pensa o poder, a culpa e a violência através de Jesus Cristo . O mundo islâmico pensa-os através de Maomé . Isto não é uma afirmação teológica. É estrutural. Cristo: sofrimento, culpa e redenção Jesus Cristo nunca fundou um Estado, não liderava exércitos e não lhe é reconhecida nenhuma conquista territorial. Pregou, arranjou seguidores e acabou condenado, humilhado e executado. O centro moral do cristianismo não é a vitória militar ou política, mas o sofrimento do inocente . Não é a expansão, mas a confissão do pecado . Não é o triunfo, mas a redenção . Daqui nasce uma moral com características muito es...

Do perdão ao tribunal moral: Pocahontas, Greta e a culpa que já não termina

Há figuras que sobrevivem à história porque deixam de ser pessoas e passam a ser símbolos. Pocahontas é uma delas. Greta Thunberg pode vir a ser outra. Separadas por séculos, contextos e causas, ambas ocupam hoje um lugar semelhante no imaginário ocidental: o da inocência que acusa uma civilização culpada . Mas a semelhança termina aí. Porque a moralidade que Pocahontas representa não é a mesma que Greta encarna. E essa diferença ajuda a perceber muito do que se passa hoje na política europeia. Pocahontas e a culpa cristã clássica A Pocahontas histórica pouco tem a ver com a figura que a cultura popular consagrou. O que importa aqui não é a pessoa real, mas o mito . No mito, Matoaka, conhecida como Pocahontas é pura, jovem, moralmente superior, vítima de um mundo violento e, sobretudo, sacrificial . Ela sofre, morre cedo e não exige reparação. O seu papel simbólico é permitir que o Ocidente reconheça a culpa do colonialismo e, ao mesmo tempo, a encerre . Este mecanismo é herda...

Israel é um pais agressivo ou pacifico?

É comum a acusarmos Israel de genocídio, de ocupação, de discriminação. Nos meios de comunicação social ocidentais, Israel é representado quase como o diabo na terra. Será Israel um pais agressivo, sem respeito pelos países vizinhos e com um desejo de subjugar povos indefesos? É Israel um agressor, um opressor colonialista, como alguns patetas da extrema-esquerda querem fazer crer? Vamos levantar 2 questões para tentar responder à questão que origina estas linhas: 1 - Quantas guerras foram iniciadas por Israel? 2 - Quantas vezes Israel se opôs a propostas de paz para criação de 2 estados? As guerras de Israel Israel desde a sua origem moderna, 1947, esteve envolvido em várias guerras. Na realidade a sua independência vem em consequência de conseguir vencer uma guerra contra os seus vizinhos. 7 conflitos destacam-se em pouco menso de um século e existência: Guerra da independência/Nakba (1947-1948) Crise do Suez/segunda guerra Árabe-Israelite (1956) Guerra dos 6 dias (1967) G...

O estado Palestiniano merece existir?

O estado palestiniano merece existir? Ou se acharem esta pergunta muito provocadora poderemos reformulá-la para “O que fizeram os palestinianos para conseguirem viabilizar uma estado?” “Em que fundamentos podemos sustentar a existência de um estado palestiniano viável?” Para responder a estas questões vamos usar diferentes perspectivas e tentar ver de que forma elas se contrapõem ou se complementam. Perspetiva jurídica O direito à autodeterminação está consagrado na Carta das Nações Unidas. A resolução da ONU de 1947 previa a partição da Palestina (excluindo a Jordânia, que também fazia parte do território sob mandato britânico) em dois Estados: um judaico e outro árabe-palestiniano. No entanto, precisamos saber distinguir o que é um direito teórico daquilo que é a capacidade prática de um povo para conseguir criar um estado. O direito existe mas a sua aplicação depende unicamente de condições políticas concretas. A questão não seria se merecem mas sim que condições criaram para ...