Ao longo dos três textos anteriores analisámos diferentes expressões de um mesmo fenómeno. Vimos como a passagem da moral de Pocahontas para a moral de Greta marcou a transição entre uma culpa que se encerrava e uma culpa que se tornou permanente. Vimos como a herança cristã moldou uma civilização orientada para a confissão e o arrependimento, em contraste com outras arquiteturas morais centradas na vitória e na legitimidade do poder. E analisámos como o wokismo surge como continuação dessa herança, privada porém do seu mecanismo de redenção. A questão que se impõe é inevitável: o que estamos a viver é o declínio do Ocidente — ou apenas uma tentativa imperfeita de adaptação a um mundo em rápida transformação? A tentação do discurso do declínio Sempre que uma civilização perde centralidade, surge a narrativa do fim. Roma teve os seus profetas do colapso. O Império Otomano falou durante séculos do “homem doente da Europa”. O mesmo aconteceu com a Europa após a Primeira Guerra Mundia...
Nos dois textos anteriores analisámos duas tensões centrais da civilização ocidental. No primeiro, vimos como a passagem da moral de Pocahontas para a moral de Greta marcou a transição entre uma culpa que se encerrava e uma culpa que nunca termina. No segundo, analisámos como o cristianismo legou ao Ocidente uma cultura da confissão e do arrependimento, enquanto o Islão desenvolveu uma relação diferente entre poder, vitória e legitimidade. O wokismo surge precisamente neste cruzamento. Não como rutura com o Ocidente, mas como consequência direta das suas próprias fundações morais — privadas, porém, do seu elemento moderador. Uma moral herdada, não inventada O wokismo não inventou uma nova ética. Herdou-a. Da tradição cristã conserva quase tudo desde: (A) a distinção entre inocente e culpado, (B) a centralidade da vítima, (C) a ideia de responsabilidade moral e (D) a exigência de reconhecimento público do erro. O que desapareceu foram os mecanismos que encerravam o processo moral como o...