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Merkel, Alemanha e o futuro da Europa

Merkel, Alemanha e o futuro da Europa


Recentemente Angela Merkel venceu novamente as eleições na Alemanha. Entra assim no quarto mandato a Chanceler que é tão respeitada e temida na Europa. Para alguns representa os valores europeus no seu auge, para outros representa uma Alemanha democrática mas ao mesmo tempo ameaçadora.


Na minha opinião ela representa o típico político que não está à altura dos acontecimentos que a rodeiam. O político que se reveste de uma aura de respeitabilidade ao mesmo tempo que só pensa na mesquinhez de alguns votos. Como chanceler da Alemanha ela tem de lidar com as diferentes pressões internas ao mesmo tempo que tenta fortalecer todo um continente. Ao mesmo tempo que pretende liderar um continente tem de provar que a ameaça histórica de uma Alemanha forte já não existe.


Politicamente a Alemanha domina a Europa. As alternativas são o clássico isolacionismo geográfico e político inglês ou a irrelevância moral e estratégica francesa. O seguidismo inglês e francês aos discursos da Chanceler quando fala contra ou a favor do Multiculturalismo indicam somente que não existe concorrência para a liderança do projeto europeu.


Geografia e história


A Alemanha é grande demais para a Europa mas sem esta é irrisória. Este é o grande dilema histórico dos alemâes: para serem mundialmente relevantes precisam dos seus vizinhos fracos que formam a placa europeia.


Historicamente, ao longo do século XX, a Alemanha aprendeu que a via militar nâo é eficaz na comunicaçâo com os seus vizinhos europeus. Mas, no final do século XX e princípio do século XXI, mostrou que ainda não aprendeu a comunicar com eles.


Se a Europa fosse um carro a Alemanha seria um motor e os seus vizinhos as restantes peças. Nâo serve de nada ter um motor V8 de última geraçâo numa carroçaria dos anos 40 com pneus carecas de um mini dos anos 80.


O futuro da Europa passa por uma Alemanha forte que sirva de motor mas que ao mesmo tempo saiba intervir em favor dos seus vizinhos e ajudá-los a crescer. Ao mesmo tempo os vizinhos mais fracos terâo de ser capazes de fazer as reformas necessárias para se adaptarem às necessidades impostas por um motor potente.


A crise económica e a crise grega mostrou que nem os vizinhos estâo dispostos a crescer nem a Alemanha está disposta a ajudar muito….


Enquanto a Alemanha não se mentalizar que precisa dos seus vizinhos mais fracos, que ao mesmo tempo que lidera, tem de saber conduzir a europa pela vasta tapeçaria histórico-cultural que forma o tecido social europeu, aceitar alguma igualdade no debate e respeito de opiniões, a Europa andará sempre aos tombos.


A crise que se resolve com mais crise


A crise grega, a corrupção política e económica do Sul da Europa, a cegueira propositada de instituições dos países ricos face aos problemas dos problemas do Sul, a ajuda económica revestida de empréstimos com juros tão altos que tornam a recuperação económica uma miragem, mostra bem o desfasamento que existe entre os discursos políticos e a realidade económica e social da europa atual.


A crise europeia não é culpa da Alemanha. Os gregos são os principais responsáveis pela sua crise e ninguêm obriga os portugueses a elegerem constantemente políticos corruptos e carreiristas incompetentes.


A questão, neste caso, é que nunca houve liderança europeia que fosse capaz de impôr reformas estruturais necessárias. Mais depressa se aceitam novos países com práticas económicas duvidosas, se estabelecem empréstimos economicamente desvantajosos para países pobres ou se impõem sanções, do que se trabalha no sentido de criar reformas estruturais que gerem maior transparência económica e política.


Se em vez da Alemanha de Schroeder aceitar a entrada da Grécia tivessem estipulado reformas estruturais necessárias para se pertencer à União Europeia, dificilmente esta crise teria acontecido. A verdade é que os países europeus ricos beneficiam da corrupção dos pobres: se por um lado conseguem negócios vantajosos para as suas empresas, por outro ganham nos juros dos empréstimos que fazem a seguir para os pobres poderem pagar as dívidas mal contraídas aos seus vizinhos ricos.


Em vez de um projeto político, a Europa precisa tornar-se num projeto social. O que realmente falta na Europa é a componente social como foi claro na crise grega. Como líder europeia, Angela Merkel teve um papel importante no perdão da dívida… depois de ter aconselhado os gregos a venderem as suas ilhas, ter promovido a recriminação entre povos e ter-se escondido atrás do seu ministro da economia de forma a não ser relacionada com todas as provocações feitas.


O Fundo Monetário Internacional foi mais humano e lógico nas propostas para resolução da crise do que os principais parceiros europeus… especialmente a Alemanha de Merckel.


Nuclear, Rússia e países de Leste


O abandono da energia nuclear pela Alemanha, após Fukushima, foi só mais uma prova da falta de nervo da Chanceler Merkel no que concerne a casos polémicos.


Após o acidente de Fukushima, Angela Merkel decidiu deixar de apostar na energia nuclear: a mais limpa, segura e rentável forma de energia que existe.


Em vez disso, investiu em projetos para aumentar a sua dependência do gás Russo, numa época que a Rússia é cada vez mais agressiva com os seus vizinhos europeus.


A construção do gasoduto north stream II pode ser bom para a Alemanha mas fragiliza a independência energética dos países de Leste que ficam mais dependentes do gás Russo (os EUA começaram a vender gás a esses países recentemente). A energia mais barata que os alemães vão pagar será compensada com o aumento de preços que os países de Leste vão sofrer, assim como ao aumento de agressão política e económica que a gazprom está disposta a exercer sobre os seus vizinhos.


Se a Alemanha pretende liderar a Europa nunca deveria ter abandonado a energia Nuclear e muito menos investir em negócios com um país que é cada vez mais agressivo com os seus vizinhos europeus.


A Alemanha deveria ter investido em projetos conjuntos com países de Leste para construção de reatores nucleares que aumentam a competitividade energética europeia, deveria ter estimulado a criação e exploração do gás do Sul da Europa e se fizesse algum negócio com a Rússia deveria te-lo feito com a salvaguarda dos interesses dos seus vizinhos de Leste.


Os alemães querem acabar com a energia nuclear no seu país mas querem que sejam os outros europeus a pagar o preço.


Imigração e direitos humanos


Em 2010 Angela Merkel afirmou que o multiculturalismo estava morto. Depois disto continuou a apoiar um relativismo moral caracterizado por um ataque constante aos valores europeus, manteve o discurso politicamente correto a favor do Islão ao mesmo tempo que o mau estar social ia aumentando, abriu as fronteiras de forma indiscriminada lançando a Europa na maior crise social até ao momento e com a necessidade de votos locais voltou a falar novamente na defesa dos valores europeus e na expulsão de alguns imigrantes. 7 anos de total ausência de linha política coerente.


A aceitaçâo de grande massa de imigrantes sem saber proteger fronteiras europeias. Em vez de seguir o exemplo da Austrália decidiu abrir as portas sem sequer saber a opiniao dos seus vizinhos e impondo quotas aos mesmos.


Agravou o problema europeu de não saber definir fronteiras externas e manteve a hipocrisia política da Europa dos direitos humanos: aceitar os imigrantes porque são todos vítimas de uma forma que só ajudou a enriquecer grupos de tráfico humano; manter um discurso político para o povo baseado em direitos ao mesmo tempo que se paga a traficantes para pararaem o tráfico e não definir uma politica global que defenda todos os países europeus (os países do sul da europa são os mais afetados).


Assim ajudou a definir uma crise de identidade europeia sem precendentes: em vez de afirmar os valores europeus, não soube hierarquizar valores europeus; em vez de se focar em valores europeus e em estratégias realistas que assegurem um futuro à Europa a Alemanha está a criar mais problemas que geram mais dúvidas e fontes de tensão política e social: aumento de criminalidade, aumento de sectarismo muçulmano, aumento de terrorismo.


No final conseguiu quase destruir o sistema Shengen pela primeira vez (algo só conseguido por terroristas islâmicos), criou crises diplomáticas e sociais com países de Leste, acelerou o Brexit e ajudou ao crescimento de partidos de extrema-direita.


O maior erro da Alemanha tem sido a sua relaçâo com os países de leste


Nâo sabe reconhecer a importância da extrema-direita na história, identidade cultural e mitologia heróica recente desses povos. Nem o seu sofrimento à mão dos diferentes vizinhos: a Polónia foi invadida pela Alemanha e abandonada à União Soviética; A Ucrânia sofreu à mão dos soviéticos, depois alemães, depois os soviéticos voltaram com mais força e agora foram substituídos pelos russos...


Em vez de lhes garantir maior independência energética política e económica da Rússia e de não provocar tensões sociais permitindo maior abertura social ao diálogo político e ao mesmo tempo puxando por reformas económicas, políticas e sociais que democratizem ainda mais esses países, fez exatamente o contrário.


Uma postura extremamente agressiva por parte da Rússia foi sublinhada com negócios proveitosos para a Rússia e Alemanha aumentando a fraqueza geo-estratégica desses países e depois agravada com pressões políticas para aceitarem quotas de imigrantes. O resultado final foi o apoio cada vez maior de movimentos e forças políticas associadas à extrema-direita nesses países.


Foi a fraqueza militar e institucional Polaca que os vitimizou às mãos dos Alemães e Soviéticos. Foi a corrupção política e elitista que enfraqueceu a Hungria do século XVII para ser conquistada pelos Otomanos ou a Ucrânia do século XXI ao ser parcialmente anexada pela Rússia. Mas também foi uma Polónia forte que salvou Viena da conquista otomana após a queda da Hungria.


A força política, social e militar dos países de Leste é essencial para o futuro europeu. A Chanceler comprometeu isso com resultados que só poderão vir a ser sentidos e compreendidos pelos nossos descendentes.


Esses países nao precisam de ver negócios de gás russo com a Alemanha nem imposição de quotas para aceitarem imigrantes de um background cultural anti-integração e anti-valores europeus. Eles precisam de alguém que lhes garanta a proteção das suas fronteiras e o respeito pela sua cultura. Era nisto que a Alemanha devia ter apostado ao mesmo tempo que exigia maior democratização.


Conclusão


A Alemanha de Merkel devia estar a trabalhar para um mercado energético comum que beneficiasse a europa como um todo mas em vez disso aposta no suicidio energético e político com a Rússia.


Deveria ter trabalhado no sentido de obter maior transparência económica e politica dos países membros e dos candidatos mas em vez disso permitiu negócios habituais que entre outras coisas permitiu a Portugal endividar-se com empréstimos para auto-estradas que não precisava ao mesmo tempo que destruía a sua frota pesqueira e agricultura.


Merkel não devia entrar em desvarios ambientalistas anti-energia nuclear mas sim apostar forte na investigação e construção de reatores mais seguros e assegurar uma política energética europeia que seja capaz de responder às necessidades da placa continental.


A Europa precisa saber definir e defender as suas fronteiras externas, sabor defender os seus valores e definir políticas conjuntas que respondam aos desafios futuros energéticos, políticos e económicos. E para isso precisa de líderes eleitos regionalmente mas com visão e políticas continentais.


Até agora, entre as ideias de grande estadista publicitada, Merkel tem parecido mais como um pequeno político interesseiro que finge perceber das grandes questões quando se preocupa mais nas pequenas questões que lhe garantam o poder.


Mas não se pense que a Alemanha é desnecessária ou inimiga do projeto Europeu. A Alemanha é o motor da Europa. Mas não pode ser a Alemanha de Merkel. Terá de ser a Alemanha de Bismarck… A Europa precisa da liderança, sensatez e pragmatismo de Otto Von Bismark.


Leituras recomendadas


https://www.huffingtonpost.com/entry/imf-europe-debt-spain-greece-debt_n_1957204.html


https://www.ft.com/content/2bf58684-2102-11e6-9d4d-c11776a5124d


https://www.theguardian.com/business/2010/mar/04/greece-sell-islands-german-mps


http://www.dw.com/en/germanys-nuclear-phase-out-explained/a-39171204


https://www.economist.com/news/europe/21723822-angela-merkel-says-nord-stream-2-no-ones-business-germanys-germanys-russian-gas-pipeline

Comentários

  1. 5 anos depois da publicação deste artigo. Em 5 anos Angela Merckel passou de "provavelmente a maior estadista europeia" para uma "idiota útil" do Putin. A Europa a sofrer um reality check!
    https://www.politico.eu/article/putin-merkel-germany-scholz-foreign-policy-ukraine-war-invasion-nord-stream-2/

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