By Credit: NASA/JPL-Caltech/S. Stolovy (Spitzer Science Center/Caltech) - http://www.spitzer.caltech.edu/images/1540-ssc2006-02a-A-Cauldron-of-Stars-at-the-Galaxy-s-Center, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2098328
Pode este artigo explicar-se como um sonho de factos especulativos. O objetivo será estudar os fatores que influenciam a evolução de sociedade avançadas no universo. Pretendo juntar áreas que, aparentemente, não tem muito a ver umas com as outras: Geopolitica, Astronomia, Geografia, História e Exobiologia. De espécies inteligentes é claro. As primeiras são áreas de saber humano bem desenvolvidas enquanto a última assemelha-se mais a divagações especulativas uma vez que nunca conhecemos vida extra-terrestre e muito menos inteligente.
Mas podem estas áreas influenciar-se umas às outras? A Geopolitica é feita por seres humanos e qualquer espécie inteligente terá de desenvolver uma qualquer forma de geopolitica. Esta geopolitica pode ser afetada pela geografia local e, mesmo sem se saber, por considerações mais extra-planetárias.
Neste artigo vamos divertir-nos a usar estas ciências humanas para tentar compreender o tipo de pressões que outras espécies inteligentes possam sentir e a forma como estes fatores podem atrasar ou acelerar a evolução de uma espécie inteligente.
Vida inteligente e sociedades avançadas no universo
Neste artigo assume-se que existe vida por todo o universo. Mas vida ou vida inteligente são diferentes. A primeira não implica a segunda. A vida inteligente pressupôe a existência de um conjunto de situações que não precisam estar presentes para haver vida. Como se sabe hoje em dia a vida pode desenvolver-se em todo o tipo de ambientes.
As bactérias extremófilas habitam ambientes extremos, mas esses ambientes não permitem vida inteligente. A vida inteligente exige um meio estável e tempo para permitir o desenvolvimento de complexidade.
2 fatores astronómicos são relevantes para o desenvolvimento de vida inteligente. O primeiro é a localização do planeta no sistema solar. Consoante o tamanho da estrela do sistema existe uma região conhecida como “área habitável”. Isso significa que o planeta não está muito longe nem muito perto da estrela. Não é uma fornalha mas também não é um bloco de gelo… é o local ideal para existir muita água em estado líquido.
O planeta tem de se encontrar na área habitável e nunca sair de lá. O sistema solar tem de ter uma única esctrela. 2 estrelas poderiam gerar muita instabilidade ecológica não propicia ao desenvolvimento de ecosistemas com estruturasmulticelulares mais complexas capazes de criar cultura.
O sistema solar TRAPPIST-1b tem 2 planetas na região habitável. Ao todo o sistema solar tem 7 planetas do tamanho do nosso planeta e a uns meros 40 anos luz. Mesmo aqui ao lado.
Fonte: aplicativo Exoplanet
IMAGEM: O sistema HD 99706 tem 2 planetas que não tem órbitas limitadas à zona habitável. Estes planetas teriam muita dificuldade em abrigar vida inteligente.
Fonte: aplicativo Exoplanet
Outro pormenor importante para o desenvolvimento de sociedade inteligentes: estabilidade dos ecosistemas. Foi um cometa que levou os dinossauros à extinção. Desse evento a estas linhas vão 65 milhões de anos. A sociedade humana apareceu nos últimos milhares de anos. E se um planeta sofrer um impacto significativo a cada 20 milhões de anos, ou a cada 30 milhões de anos?
Numa fase inicial do sistema solar os impactos são muito intensos e frequentes. Mas com o tempo, os impactos tendem a tornar-se mais espaçados. Mesmo assim, com a quantidade de corpos celestes existentes a probabilidade de um evento destes é significativa… a não ser que algo proteja o planeta.
O que pode servir de escudo do planeta terra contra cometas e asteróides? Teria de ser um escudo gravitacional suficiente forte para atrair esses corpos. Existe algum planeta tão massivo no nosso sistema solar que nos possa proteger. O rei dos deuses na mitologia romana, Júpiter, é o nosso escudo.
A sua gravidade é tão forte que consegue puxar para si muitos corpos celestes, antes que estes entrem na região mais interna do sistema solar. Sem Júpiter, provavelmente, não estaríamos aqui.
Fatores que influenciam o desenvolvimento de sociedades avançadas no universo
Tamanho do planeta e distância da zona habitável ao sol
Imagine 2 planetas com o mesmo tamanho que o nosso mas em sistemas solares com estrelas de tamanho diferentes. Quanto maior a estrela mais a zona habitável está afastada e as estações são mais longas. Quanto mais pequena a estrela mais curto é o ano e mais curtas são as estações.(Neste caso assumo que todos os planetas tem inclinação idêntica à sua estrela que permite as estações do ano).
Agora façamos outro exercício mental. Vamos propor exatamente a mesma distância à estrela mas com planetas habitáveis de diferentes tamanhos. As estações duram o mesmo mas a distância entre cidades é maior por exemplo.
De que forma estas variáveis podem influenciar os paises a entrarem em situações de conflito? Será que Hitler desejaria chegar a Moscovo se a distância fosse maior e o Inverno durasse mais tempo? E se a distância fosse menor e o Inverno mais curto?
Apesar de todo o sofrimento associado a guerra tem sido um motor de desenvolvimento. A Europa não tem países evoluidos porque se tornaram pacificos mas sim porque as guerras obrigaram os estados a gerirem bem os seus recursos, a investir em tecnologia e ciência, a criar burocracias mais avançadas e estados fortes. A China começou com milhares de estados guerreiros e acabou como um único império construido em meritocracia.
O tamanho do planeta e a sua proximidade ao Sol permite alterar por completo a percepção de risco em intervenções militares. Isto significa que em alguns planetas os conflitos podem ser maioritariamente regionais e noutros mais globais. Em alguns planetas a guerra pode parecer mais lógica do que noutros. Isto vai influenciar grandemente a evolução das sociedades existentes nesses planetas.
Estabilidade ambiental
No sistema solar TRAPPIST, visto atrás, existem 2 planetas na "área habitável”. No entanto não existe nenhum planeta tipo Júpiter e a estrela desse sistema é bem mais pequena que o nosso sol. O que significa que esses planetas estão muito perto do principal centro gravitacional. Sem proteção de um planeta externo, em frente ao alvo dos corpos celestes e com menos área livre para evitar o contacto, qual será a probabilidade de vida inteligente evoluir nesses planetas? E qual a velocidade com que a sua cultura e tecnologia consegue evoluir?
Fonte: aplicativo Exoplanet
Imagine-se um incidente aleatório tipo tunguska? Em Tunguska, na Sibéria, houve a queda de um objeto celeste no início do século XX. A queda provocou uma explosão na atmosfera que destruiu milhares de kilómetrios quadrados. Num planeta como os que existem em TRAPPIST este tipo de fenómenos pode ser muito mais comum do que na Terra. Em vez de uma vez num século pode acontecer 2 vezes numa década.
Que tipo de estabilidade politica e social poderia existir num planeta onde numa década detonam aleatoriamente corpos celestes com a força de bombas nucleares? Como podem sobreviver sociedade inteligentes mais complexas capazes de desenvolver a tecnologia que os salve dessas ameaças?
Num século, seriam 20 detonações aleatórias. Pompeia não seria uma excepção, seria a regra.
Planetas na área habitável
E se Vénus e Marte tivessem vida inteligente tal como o planeta Terra. 3 espécies diferentes no mesmo sistema solar. Que tipo de impacto teria na evolução dessas espécies?
Vamos agora pensar num sistema solar onde os planetas interiores estão bem protegidos por um qualquer Júpiter e tem uma distância ao Sol que lhe dê mais espaço de manobra para não colidirem frequentemente com objetos celestes. Mas vamos pensar que em vez de um planeta existem 2 ou 3 planetas com vida inteligente.
Se a vida inteligente surgir num planeta mais rápido que noutro, então esse planeta vai sentir maior necessidade de colonizar esses planetas. Qual seria o nosso incentivo para colonizar Marte se fosse ecologicamente viável? Nesse caso, o incentivo para diferentes potências mundiais cooperarem para viagens espaciais seria muito maior. Esses planetas seriam uma força positiva para o avanço tecnológico dos paises do planeta colonizador.
Mas podemos pensar que em ambos os planetas poderia existir vida inteligente. Imaginem Galileu apontar umas lunetas para Marte e ver uns foguetões a viajar de um lado para o outro? Mesmo existindo o risco de guerras e exploração também existiria uma força dinamizadora que poderia levar a uma competição saudável entre planetas.
Tanto a guerra como a cooperação seriam fatores importantes de desenvolvimento cultural, cientifico, social e tecnológico para estes povos. A evolução deles seria mais rápida.
Eixo euro-asiático e continente americano
A Geografia tem um impacto significativo na evolução das sociedades humanas. É a geografia europeia que explica a razão pela qual nunca surgiu um império europeu como aconteceu na Ásia com a China.
Como podemos reparar os grandes impérios da história surgiram todos no eixo euro-asiático. Egipto, Mesopotâmia, Chineses, Mongóis, Otomanos, Britânicos, etc… Através do eixo euro-asiático a informação, animais domésticos, doenças, conhecimento e povos circularam de uma forma que nunca aconteceu na versão vertical do continente americano.
Uma estrutura vertical, limitada no centro por terrenos irregulares e florestas densas dificultou a passagem de pessoas, animais e conhecimento. O milho começou a ser usado na região sudeste do México há 10 mil anos. Demorou 6000 anos para entrar na parte sudeste dos EUA. E quando os europeus chegaram ao continente levavam com eles uma enciclopédia de doenças para as quais os nativos não tinham qualquer defesa.
Podemos então imaginar um planeta com 3 continentes tipo americano, sem um eixo euro-asiático, ou uma mistura de continente americano com ilhas tipo austrália. Os primeiros humanos a chegarem à Austrália tinham tecnologia mais avançada do que os aborígenes, séculos mais tarde, quando os europeus chegaram. A ilha serviu como uma barreira para a inovação tecnológica.
Um planeta com esse tipo de geografia (placas continentais verticais, ilhas isoladas) teria mais dificuldade em criar sociedades avançadas. Demoraria muito mais tempo para conquistas tecnológicas como mandar o primeiro cidadão para a Lua, descrever o espetro eletromagnético ou ler tweets.
Conclusão
As ambições de uma sociedade dependem do seu grau de avanço em relação a outras mas também em relação à sua geografia. A percepção de risco, para uma sociedade que usa a guerra relâmpado, é menor se a distância a ser percorrida for menor, assim como os obstáculos geográficos e ambientais. Isto pode ser um fator decisivo geopolitico que condiciona a evolução de uma espécie inteligente enquanto atrasa o de outra.
A distância à Estrela, a proteção de um planeta maior, o tamanho do nosso planeta, o tipo de continentes, a existência de outros planetas são tudo fatores que podem acelerar o desenvolvimento social e tecnológico de uma espécie enquanto atrasam o de outras espécies. São fatores que afetam o desenvolvimento das sociedades porque alteram por completo a geopolitica local, as estratégias de competição ou cooperação, a necessidade de se estabelecer sistemas de meritocracia, etc...


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