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O COVID-19 como ponto de reflexão na evolução geopolítica da atual Ordem Internacional

O assalto à Ordem Internacional

Creio que é seguro assumir que esta pandemia não vai ser facilmente esquecida. Apesar de não ser a pior pandemia que o Homem já conheceu, ao contrário do que afirmam jornalistas armados em poetas, também não vai ser uma simples gripe sazonal. 

No entanto, esta pandemia não vai ficar na memória devido à violência do virus em si mas às fraquezas que ela mostrou existirem no sistema internacional e à resposta que os governos decidiram dar. Esta pandemia surge num momento crucial da história e da economia.

Surge no momento em que o planeta está transformado num centro comercial globalizado dependente de uma fábrica que mente, construido sobre a batuta de uma ordem internacional mas dependente de um país que a pretende destruir. Um mundo separado por uma classe média europeia esquecida pela globalização e mais de 800 milhões de chineses retirados da pobreza extrema por causa da globalização.

Um mundo com contratos sociais internacionais mais fracos do que se queria admitir: Instituições Internacionais inúteis, falta de coesão de grandes grupos politicos, dissociação entre as populações europeias e as classes governantes que elegeram, fragmentação de poder e falta de capacidade de resposta rápida por parte de muitos tecnocratas, etc...

O momento de um choque gigante entre a consciência histórica mais lenta e a adaptação tecnológica bem mais rápida. Altura certa onde muitos paises adaptam e inovam a tecnologia ao serviço das suas sociedades e outros paises que moralizam e intelectualizam uma tecnologia que não sabem e não querem usar.

Um mundo liderado por uma potência em crise existencial, em que os fantasmas históricos do racismo afetam a estabilidade norte-americana a caminho de se transformar no primeiro país a passar de uma maioria branca para uma minoria branca. Uma crise existencial que se manifesta também em novas formas de isolacionismo.

Fazer uma análise desta pandemia, a resposta à mesma ou futuras consequências desfasada do choque entre ordens intrnacionais seria um erro. 

Mas também é um momento crucial na economia, quando o mercado se encontrava sobre valorizado, a apresentar sinais técnicos de correção, no final do maior Bull Cycle da história. A resposta de fechar a economia para combater a pandemia pode ter transformado uma correção necessária ou uma recessão controlada numa recessão cujas previsões são dificeis de fazer. Mas de certeza que serão muito negativas!

A Resposta do Sistema Internacional

A resposta inicial à pandemia do COVID-19 mostra todos os problemas do atual sistema: um pais gigante que manipula informação descaradamente, uma instituição internacioal (OMS) corrupta que atrasa respostas necessárias, arrogância cultural de muitos europeus assumindo que não podem ser infetados, lideranças populistas que impedem respostas atempadas. É uma falha à escala mundial.

A crise do atual sistema internacional está bem patente na falta de segurança e liderança dos lideres ocidentais. O presidente da República Português vem falar da “Lição da China” como se fosse um modelo a seguir. Supostamente com base numa conversa que teve com os netos. O presidente dos EUA isola-se internacionalmente em cada afirmação ou decisão que toma; a maioria dos lideres europeus são tecnocratas inúteis incapazes de tomar decisões. E cada vez que têm de tomar decisões parece ser o fim da Europa.

Os meios de comunicação social ocidentais não são diferentes. Coreia do Sul, Taiwan, Vietname, Tailândia, Singapura, Japão são paises asiáticos que se sairam melhor que a China. No entanto, nos telejornais, o único termo de comparação usado é a China.

O pais que mais mentiu sobre o número de infetados e mortos é a base de comparação para se analisar o sucesso dos outros paises. As piores estratégias a ser usadas são copiadas da China e não dos paises que mais sucesso tiveram. O Presidente Xi não podia estar mais satisfeito com a propaganda gratuita.

Os politicos europeus quando falam na Televisão sobre o combate do COVID-19 usam exemplos de sucesso, muitas vezes anedóticos, e só se focam em alguns exemplos europeus. Se o regionalismo dos lideres europeus e a falta de liderança americana continua, a Ordem Internacional já morreu.

Europa

Não há nada de bom a dizer da Europa nesta pandemia. E provavelmente, essa é a razão pela qual se transformou rapidamente no epicentro da pandemia.

Uma união europeia que não funciona, uma sociedade civil que não reconhece autoridade aos governos que elegeu, com uma visão do mundo demasiado egocêntrica, inocente e ignorante. Ignorante porque não conhece as forças que movem os outros atores estatais e não estatais, inocente porque acha que todos querem ser como eles e egocêntrica porque se acham donos da verdade absoluta e de uma cultura superior.

Uma UE contruída para evitar confrontos internos de grandes potências e não para proteger pequenas potências de choques externos. Uma UE em luta constante com os seus fantasmas históricos mais recentes. Como conciliar o uso de tecnologia de vigilância com o passado nazi?

Os Europeus acham que vivem num pós-modernismo cultural acima dos nacionalismos dos seus antepassados. Na realidade os europeus deveriam trocar a europa enquanto conjunto de estados nação pela Europa Estado Nação. Como pode a Europa transformar-se num estado-nação sem a guerra que originou os seus estados-nação? Pode o COVID-19 ser o novo tipo de ameaça que vai ajudar os europeus a unirem-se? A transformar as diferentes experiências passadas numa unidade politica coerente atual capaz de lidar com os desafios tecnológicos do futuro?

São claras as divisões existentes entre europeus. Nas duas crises mais recentes (refugiados e COVID-19) a resposta europeia consistiu em virar costas aos seus pós-modernismos supra-nacionais e fechar fronteiras. Essa divisões serviram a administração Bush e são bastante úteis aos chineses.

Mas a Europa também começou a responder. A UE começou a disponibilizar recursos, reencaminhou muita da ajuda chinesa para Itália, a Alemanha enviou ajuda para Itália e depois de horas de discussão aprovou ajuda de 500 mil milhões de euros. A questão que fica: qual o nível de stress que o sistema europeu precisa para se unir mais? No futuro é necessário menos Portugal, Alemanha, França ou Polónia e mais Europa. Muito mais Europa.

O mau cenário

A Europa vive numa corda bamba. Os Europeus ainda não conseguiram atingir os níveis de vida que tinham antes a última recessão. Foi uma década perdida. A falta de investimento em tecnologia que permita crescimento económico, uma moeda única que ainda não conseguiu cumprir os sonhos na qual foi construída, demagogos que só produzem legislação anti-inovação, partidos populistas anti-europeus e uma Rússia disposta a financiar esses partidos fazem o projeto europeu tremer.

E a recessão que se aproxima vai ser uma injeção de testosterona para os partidos populistas. A democracia vai ser posta em causa. A população envelhecida da Europa agrava o problema pois tende a votar mais em partidos nacionalistas, a ser mais religiosa e a evitar inovações tecnológicas. Qual o idoso que quer pagar com MBWay? Qual o idoso disposto a alterar os apioios sociais para aumentar o investimento em start ups cuja finalidade ele não compreende e cujos beneficios ele não vai usufruir?

Se politicos populistas anti-europa vingarem e a Europa se separar mais, será excelente para a nova potência do eixo euro-asiático. A China vai adorar retalhar a Europa de acordo com os seus interesses. Provavelmente vai acelerar a separação europeia entre Norte rico e Sul pobre.

Os paises de Leste ficarão mais suceptiveis a disputas de influências russas e chinesas. Que tipo de ações estará a Rússia disposta a fazer se a percepção de risco mudar face a uma Europa mais dividida? De que forma isso se pode incompatibilizar com o BRI chinês?

O bom cenário

Se o COVID-19 originar mais Europa com políticas coesas e capacidade de decisão acelerada então a China vai-se arrepender de não ter regulado os “wet markets” mais cedo.

Uma das reações europeias à recente crise consistiu numa revisão da forma como pretendem desenvolver investigação em Inteligência Artifical (IA) e em parcerias com empresas tecnológicas como Google, Apple, Facebook, etc… totalmente oposto ao que se passava antes do COVID-19.

Pode esta pandemia tornar-se o ponto de viragem europeu em relação ao desenvolvimento tecnológico e cientifico? Um volte-face para os muitos legisladores inúteis nos corredores de Bruxelas?

Uma Europa revitalizada em termos de investimento tecnológico seria visto como uma ameaça por todos. Os americanos iriam perceber uma potencial ameaça para empresas lideres, a Rússia teria medo das implicações militares de uma Europa unida disposta a investir em tecnologia e a China teria mais dificuldade em vir comprar ao desbarato tecnologias relevantes para a segurança nacional. No entanto, o mais provável seriam parcerias cientifico-tecnológicas estratégicas entre USA e UE e isso seria a pior coisa para Beijing ou Moscovo.

Como Bruno Maçães notou, esta crise também parece estar a reverter o discurso ambientalista. Se antes a natureza devia ser deixada em paz e o problema era a tecnologia, agora parece que a natureza é o perigo e a tecnologia a salvação. De um momento para o outro a Greta tornou-se uma nota de rodapé.

Se a mentalidade dos europeus mudar a este nível que impacto poderá ter nas futuras politicas energéticas europeias? De que forma irá alterar a percepção de risco face a formas de energia como a nuclear? Como afetará a Rússia, uma Europa mais unida com uma politica energética comum mais coesa e coerente? Uma politica que pode inutilizar qualquer vantagem energética que a Rússia possa ter contra muitos paises de Leste?

Pode a Europa criar um estado nação diferente? Com uma lingua comum a todos ao mesmo tempo que mantêm as linguas tradicionais? Com uma moeda comum ao mesmo tempo que permite moedas locais? Um estado funcional capaz de responder rapidamente aos desafios futuros ao mesmo tempo que consegue criar crescimento económico aos seus cidadãos?

USA

Os EUA estão em crise interna. A população maioritariamente branca do interior sente-se cada vez mais excluida num pais cada vez mais dominado por tecnologia que não compreendem e por um multiculturalismo que não aceitam.

O acentuar desta crise vê-se pela discrepância ideológica dos seus presidentes e pela cada vez maior dificuldade em encontrar pontos de encontro entre democratas e republicanos. George Bush pai - Clinton - George Bush filho - Obama - Trump. A esquizofrenia eleitoral não poderia ser maior.

2 presidentes (george Bush filho e Trump) foram eleitos por um sistema eleitoral tecnologicamente ultrapassado mas preso às grilhetas de poder histórico dos diferentes estados americanos. Mas como conseguir acabar com este sistema, reconhecendo o poder do voto popular, sem o país cair em guerra civil? Se o voto popular vencesse Al Gore e Hillary teriam sido presidentes: uma realidade alternativa muito diferente.

Mas também existe uma crise nos EUA entre a sua forma de capitalismo focada unicamente no lucro e a necessidade de politicas mais vantajosas para a sociedade como um todo. Muito do poder da China está dependente desta forma de capitalismo, muita da pobreza em classes mais pobres norte-americanas também.

A forma como Trump tenta manipular o mercado, elimina os poucos impostos que as grandes empresas já pagavam, e enfraquece a economia americana levando-a a níveis de endividamento insustentáveis é um exemplo.

Com Trump, os EUA sofrem de uma nova forma de isolacionismo. Abandonou tratados internacionais importantes, voltou costas a instituições internacionais dando espaço à China para crescer nas mesmas (ONU, OMS); abandonou conquistas relevantes como a TPP (Parceria trans-pacifico) ; atacou parceiros históricos ao mesmo tempo que fez amizade com os piores ditadores do mundo.

Muita da crise na atual Ordem Internacional vem da falta de liderança americana sobre a batuta de Trump. O exemplo chinês diz tudo: ao mesmo tempo que acaba com o TPP que era a melhor forma de combater a China abre uma guerra comercial e tenta obrigar as empresas americanas a deslocalizarem as suas fábricas. As politicas de Trump não poderiam ser mais incoerentes e incompetentes.

O mau e o bom cenário

Tudo depende de quem vai ser o próximo presidente. Por muito incompetente que a administração de Trump tenha sido com o COVID-19 se conseguir mitigar os efeitos da recessão até ao final do ano, pode conseguir a reeleição.

A reeleição de Trump seria ideal para a Rússia e a China pois conseguiriam garantir uma liderança americana sem capacidade de criar uma oposição internacional forte. O antagonismo de Trump com os seus parceiros estratégicos e vice-versa é uma lufada de ar fresco em Beijing.

Se Trump perder, a China e a Rússia vão ter de lidar com uma presidência americana que vai precisar, e já mostrou vontade, de melhorar os laços com os seus parceiros tradicionais e revitalizar a liderança internacional. Isto pode gerar grandes problemas a estes paises.

Muitos paises e blocos comerciais vão seguir essa liderança americana. A última coisa que a China quer é uma ação concertada dos EUA e da UE no que concerne à proteção de tecnologia de ponta; cibersegurança; parceiras comerciais do pacifico que alterem as redes de fornecimentos de bens e serviços em desfavor da China; fortalecimento de parcerias militares com potências regionais (Índia, Japão, Coreia do Sul, Países do Sudeste Asiático, etc…)

CHINA

Existem 3 fatores que contribuem para a China se tornar na atual ameaça: (1) um sentimento de frustração histórico que se transforma em ódio agora que se estão a erguer do século da humilhação; (2) um governo que tem medo do próprio povo e vê no sistema internacional uma ameaça existencial e (3) um crescimento económico rápido demais que oferece sensação de invencibilidade e chama a atenção de outros paises que querem experimentar o mesmo sucesso.

A China deseja uma ordem centrada nos seus interesses e está a aproveitar a crise que provocou do COVID-19 para acelerar o ataque à Ordem Internacional. A campanha de propaganda internacional contra os EUA e a tentative de chamar a atenção de muitos países pobres é um exemplo. Representando uma nova Ordem Internacional, um “sonho chinês”, a China consegue o apoio de países pobres que não conseguiram vingar no atual sistema internacional.

Está a tornar-se um choque entre ricos e pobres, e o COVID-19 ajuda. Sentimento anti-ocidental agravou-se em Timor quando os locais atacaram professores portugueses, acusados de trazerem a pandemia, que ficaram conhecidos como os “Coronas”; vários relatos em Angola falam do aumento de racismo contra brancos e mulatos e o Twitter está cheio de testemunhos do sentimento anti-ocidental chinês.


IMAGEM: Vários testemunhos de ocidentais na China falam do aumento de racismo que se tem acentuado grandemente nos últimos anos.


A China vai aproveitar o fecho das economias ocidentais e a recessão que se avizinha para começar a comprar negócios a preço de saldo e começar a definir linhas de abastecimento internacionais que mais lhe interessam. Isto significa ter maior poder para controlar as redes de abastecimento para o Ocidente.

Também vai aproveitar a recessão que se avizinha para “oferecer” ajuda financeira a paises que lhe interessem ao longo do BRI (Belt and Road Iniciative). A ajuda chinesa tem sido caracterizada por apoio a politicos corruptos e empréstimos ruinosos que lhe dêem claras vantagens: Grécia, Malásia, Sri Lanka são todos exemplos do que pode acontecer com a ajuda chinesa.

E vai fortalecer a propaganda e aumentar o sentimento anti-ocidental em muitos paises em desenvolvimento.

No entanto... existem vários problemas e desafios frente a Beijing.

Muitas redes de abastecimento não dependem só da China mas também da vontade dos paises. A UE pode preferir dialogar diretamente com a Índia para criar novas redes de abastecimento. Os EUA igualmente. A Apple já tem fábricas na Índia e outras empresas começam a mover-se para a parte sul do continente.

A china ainda é muito dependente do poder de compra ocidental. A China exporta mais de 350€ biliões para a Europa e tem um excedente comercial superior a 150€ biliões. Exporta 450$ biliões para os EUA e tem um excedente comercial de quase 350$ biliões. A índia e muitos países do sudeste asiático adoravam poder repartir parte deste bolo entre eles.

Por outro lado, começa a haver um aumento de sentimento anti-chinês em muitos paises ocidentais. Trump já fez várias acusações, muitos lideres populistas europeus vão querer usar um bode expiatório para ganhar votos populares e a China já começou a ser mencionada.

No século XIX a revolta dos boxers desencadeou fortes ondas de sentimento anti-chinês na Europa e EUA. Se a atual pandemia gerar algo semelhante a China vai ver-se a braços com milhões de consumidorees finais que não querem comprar os seus produtos e vão exigir produtos originários de outras regiões.

A recessão no curto a médio prazo, o sentimento anti-chinês a médio prazo e novas redes de abastecimento a médio e longo prazo podem afetar seriamente os planos de crescimento económico da China.

Historicamente, com Mao Tse Tung, a China mostrou estar disposta a fazer o seu povo sofrer para financiar as suas loucuras internacionais. Enquanto os chineses morriam de fome, a China enviava toneladas de cereais para outros paises para ajudar a luta comunista internacional.

No entanto a atual liderança está muito dependente de promover crescimento económico ao povo. A sua credibilidade depende disso. Já com o BRI, o PCC começa a sofrer criticas internas pela forma como investe no exterior enquanto muitos chineses passam por dificuldades. Com a perda de lucro devido à recessão e mais desemprego a China pode ter de repensar o nível de aventuras económicas que vai fazer.

A China tem outro desafio histórico que pode vir a ser um calcanhar de Aquiles. O dilema do mau impedrador. A China nunca desenvolveu um Estado de Direito nem responsabilidade democrática. Ou seja, não desenvolveu as ferramentas necessárias para garantir controlos à atuação do poder.

Em vez disso desenvolveu um estado burocrático muito centralizado com regras e costumes e um sistema de moral confuciano ensinado aos seus lideres. O atual sistema chinês é idêntico ao passado sendo que o PCC tomou o lugar do imperador chinês. A vantagem deste sistema altamente centralizado é que consegue tomar decisões muito rapidamente porque não exige muitos consensos (compare-se com a resposta europeia à crise!).

No entanto, quando esse poder central ganha demasiado poder, não existem formas independentes de controlar as suas decisões ou de as reverter atempadamente. Ou seja, o modelo só funciona quando existe uma liderança extremamente competente que não comete erros.

Neste momento o presidente Xi conseguiu obter tanto poder quanto o que tinha Mao Tse Tung. Por isso a preocupação da China em mostrar aos chineses como foi excelente a governação do presidente Xi contra o COVID-19.

Quem pode ter a perder mais ou a ganhar mais

Os paises que podem ter mais a perder ou a ganhar com a atual crise, na minha opinião, seriam a Rússia, a Índia e países do Sudeste Asiático.

RUSSIA

Asian_Russia.png

IMAGEM: Muito do território do Leste russo foi tirado à China. Com as discrepâncias de poder os chineses vão querer esses territórios novamente.


De todos os países ou regiões, quem mais pode vir a perder é a Rússia. Uma potência em constante decadência está rodeada por uma potência cujo crescimento parece não ter limites e um bloco comercial sob a proteção dos EUA.

A Rússia tem uma economia desvastada e o COVID-19 pode vir a provocar um nível de stresse económico muito superior ao que Moscovo pode aguentar. Isto significa que a Rússia vai ter de pedir ajuda: a instituições internacionais onde os seus inimigos ocidentais tem mais poder ou ao seu melhor amigo asiático.

Ao contrário do que se pode pensar, a relação Rússia-China sofre de vários problemas e desafios. Beijing terá todo o gosto em ajudar Moscovo. Mas como sabemos a ajuda chinesa vem sempre com grandes custos e Putin sabe que com alguns amigos nem é necessário ter inimigos. 8 séculos depois de terem sido engolidos pelos mongóis os russos correm o risco de serem comprados pelos chineses.

Quererão os chineses recuperar muitos dos territórios perdidos para o Império Russo e para a União Soviética? A ajuda chinesa vem acompanhada de empresas e trabalhadores chineses que vão fortalecer a sua diáspora na zona leste? Como se definirá a identidade russa quando a sua motherland for predominantemente europeia?

Por outro lado se a Europa se começar a unir mais e um novo presidente americano ocupar a Casa Branca a Rússia pode ver-se a braços com uma região ocidental que vai querer ajustar contas e definir novas politicas que vão afetar os interesses russos. O que deve Putin fazer? Aceitar a ajuda de um amigo asiático que está na disposição de a canibalizar ou rever as suas estratégia euro-asiáticas e aceitar novos amigos ocidentais?

Se a Europa ficar mais dividida o maior problema da Rússia será conciliar as suas pretensões na leste europeu com os chineses. O que fará a Rússia se a sua percepção de risco diminuir face a excursões contra países do leste europeu? Poderá isso afetar a China? A Rússia pretende dominar esses paises, a China pretende manter esses países separados de Bruxelas.

Um enfraquecimento da Europa e dos EUA, no plano internacional vai aumentar grandemente a percepção de poder e risco dos russos em relação aos chineses. Ainda pode vir o tempo em que a Rússia deseje uma Europa unida.

INDIA E SUDESTE ASIÁTICO

O grande beneficiado desta crise pode ser a Índia. Como Kissinger notou (se não me falha a memória!), os EUA deviam usar a India contra a China da mesma forma que usaram a China contra a União Soviética.

A índia é uma potência regional capaz de enfrentar a China. Com uma população mais nova vai tornar-se o pais mais populoso do mundo. Com melhores universidades consegue ter mais condições para aceitar determinados tipos de empresas tecnológicas. Com mão de obra barata consegue garantir muito do lucro desejado por grandes corporações.

A Índia, a Europa e os USA tem interesses em conjunto. A Índia beneficiaria de maior acesso aos mercados ricos ocidentais para aumentar as exportações. Uma parceira entre estes 3 centros de poder permitiria criar redes de abastecimento económicos capazes de limitar o crescimento chinês.

Mas para isso acontecer a Índia precisa de sinais de liderança por parte dos EUA. Precisa de saber que existe uma Ordem Intrnacional viável que não seja dominada pelo seu vizinho a norte e na qual ela possa ter um papel relevante. Uma liderança internacional inteligente que saiba reconhecer o poder regional indiano e permitir o seu crescimento militar e económico.

Outros paises da região e especialmente paises do sudeste asiático também sairiam claramente vencedores. O maior perigo para estes paises seria a ajuda externa chinesa com todas as suas condicionantes. Todos os paises da região se lembram do exemplo da Malásia. Estes países tem receio da China mas não tem força para se opôr.

O TPP e uma liderança decisiva por parte dos EUA assim como parcerias com empresas europeias não só vai beneficiar economicamente estes países como vai tirar poder da China sobre os mesmos. O seu potencial como parceiros estratégicos é enorme.

A principal fonte de rendimento do Bangladesh é a exportação de texteis e vestuário e pode muito bem receber mais investimento estrangeiro; a Tailândia tem um sistema de mercados e artistas criativos com grande potencial para exportação de bens ecléticos admirados pelos europeus; O Cambodja, Tailândia e outros paises do sudeste asiático oferecem destinos turisticos para muitos ocidentais. A maioria dos paises do sudetes asiático como o Vietname pode receber muitas das fábricas que se encontram na China.

Conclusão

Comparar a resposta à pandemia por parte de muitos paises asiáticos (vamos excluir a China) e a maioria dos paises ocidentais poderia ser explicada por uma analogia militar.

Se o COVID fosse uma região inimiga a bombardear os asiáticos usaram bombas inteligentes teleguiadas. Garantiram um poder de contenção do agente destruidor e muito menos baixas civis. A abordagem europeia assemelha-se muito mais a um bombardeamento tipo 2ª guerra mundial. Uma data de aviões a despejarem toneladas de bombas indiscriminadamente. Pode ser eficaz mas o nível de baixas civis será muito superior.

Até agora os politicos e meios de comunicação social tem sido focados nas comparações com a China. No entanto os dados começam a chamar a atenção para outras regiões. Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul parecem ser fontes de referência a ser seguidas no futuro e não a China.

O desagrado com que os paises ocidentais começam a criticar a OMS e as influências chinesas é uma derrota diplomática. O sucesso de regiões como Hong Kong e Taiwan uma afronta para o prestigio politico chinês.

Singapura parece ser o exemplo perfeito do dilema do mau imperador: uma ditadura com liberdade de expressão, um estado capitalista com politicas sociais, o modelo coletivo asiático com a concepção de funcionamento Suiço, uma forma de conjugar a tecnologia mais avançada com o bem estar social. Acima de tudo, estes países provam à China que a atual ordem Internacional funciona.

Até agora a globalização focou-se nos lucros de um capitalismo mais predatório em Wall Street. E quem beneficiou foi a China. Tamanho, estado forte e força laboral barata e sem direitos parecem ser premissas essenciais para o capitalismo americano. O local ideal para se produzir barato e não ter de enfrentar sindicatos.

O Mundo precisa da China mas não desta China. O PCC, em Beijing, tem razão em temer a Ordem Internacional: ambas as estruturas são existencialmente incompatíveis. O crescimento económico chinês é muito mais rápido do que a sua evolução histórica ou politica e isto gera desiquilibrios estruturais com consequências globais.

A atual ordem Internacional para sobreviver precisa garantir que os recursos básicos e as redes de distribuição estão distribuidas por vários locais; Que as capacidades de produção e a distribuição de riqueza segue para Sul e se dipersa em várias regiões próximas; precisa reduzir o crescimento económico chinês tirando-lhe relevância e precisa fortalecer laços com exemplos asiáticos por muito que custe à China tais como Hong Kong, Taiwan ou Singapura.

Os próximos anos serão muito conturbados!

Alguma literatura de Interesse

https://www.nationalreview.com/2020/04/coronavirus-pandemic-china-seeks-increase-geopolitical-power/

https://www.telegraph.co.uk/technology/2020/04/05/china-floods-facebook-instagram-undeclared-coronavirus-propaganda/

https://amp.ft.com/content/7eff769a-74dd-11ea-95fe-fcd274e920ca

https://www.the-american-interest.com/2012/05/28/chinas-bad-emperor-problem/

Comentários

  1. Nos primeiros 2 dias em que publiquei este artigo surgiram várias noticias muito interessantes:

    1 – Tal como na última crise a as empresas estatais chinesas estão a procurar comprar empresas a preço reduzido.
    2 – A Europa tentou passar uma lei que impedia a China de fazer isto, especialmente em sectores estratégicos. Como sempre na Europa as coisas demoram e, segundo parece, já não é uma lei mas uma mera troca de informações a indicar que os chineses compraram determinada coisa.

    "França, Alemanha e Itália queriam criar um mecanismo comum que permitisse travar o investimento de fora da UE em setores considerados estratégicos. Mas a regra afinal passou a exceção. A proposta para escudar a tecnologia e a energia europeias do interesse de estatais chinesas vai ficar reduzida a simples mecanismo de troca de informação. E a decisão continuará nas mãos dos países. A China investiu 300 mil milhões de dólares na Europa nos últimos dez anos. Só nos primeiros quatro meses deste ano, o investimento chinês subiu 34,9%."
    https://www.dn.pt/dinheiro/europa-sem-acordo-para-travar-onda-de-compras-chinesa-9352976.html

    https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/investidores-chineses-procuram-pechinchas-para-comprar-na-europa
    https://eco.sapo.pt/2020/04/13/comissao-europeia-dara-passos-para-impedir-china-de-comprar-empresas-europeias/

    Por outro lado o Japão criou um pacote de ajuda às empresas japonesas para se desmoralizarem da China
    https://www.jornaldenegocios.pt/economia/coronavirus/detalhe/covid-19-japao-paga-as-empresas-para-retirarem-producao-da-china-em-resposta-a-pandemia?fbclid=IwAR3aDipYILbRhJNt6OpaBPYTr9gzbMKVS7WFehJxbFIWdjvJ59dQXFCfbm0

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  2. Noticia relevante dentro daquilo que se falou no artigo. Trump deseja remodelar as redes de distribuição mundial para terminar com a depend^ncia da China
    https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-usa-china-idUSKBN22G0BZ

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