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A Importância do Norte de África para a estabilidade europeia e segurança internacional

Geografia e recursos na fronteira europeia


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Olhando de imediato para o mapa da Europa podemos rapidamente perceber quais os principias problemas energéticos.


A falta de recursos naturais no Continente contrasta com a riqueza de recursos em toda a sua volta.


Os 2 países mais ricos, estáveis e que poderiam garantir uma fonte gigante de recursos estão afastados pelo oceano Atlântico.


À direita, a Europa vê-se confrontada com um grande potência (Rússia) rica em recursos minerais mas cada vez mais agressiva e uma potência média (Turquia) com relevância geográfica mas que se torna cada vez mais problemática.


A Sul um mediterrâneo pontuado por instabilidade política, pobreza e muitos recursos naturais.


A importância de um exército e política externa europeus


A instabilidade na Líbia levou aos cortes de abastecimento de gás para Itália, em 2011.


A instabilidade nas fronteiras da Europa é uma causa de stress para o continente. Mas devemos perguntar-nos se não será também uma consequência direta da falta de política externa europeia.


Um exército europeu comum com capacidade de projeção militar sob as ordens de uma política externa comum e coesa deveria ser capaz de estabilizar a Líbia, ajudar a pacificar o pais e garantir fornecimentos estáveis de gás e petróleo.


Uma politica externa seria relevante para estabilizar os países da região, apoiar reformas económicas e políticas para o seu crescimento, aumentar o diálogo entre nações do mediterrâneo e criar focos de crescimento económico.


A relevância da África do Norte


 Countries by Natural Gas Proven Reserves (2014)


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Existem grandes vantagens para a segurança e estabilidade europeia em melhorar as relações com o Norte de África.


Diversidade


Em primeiro lugar são vários países em vez de um único pais. O que significa que a Europa pode usar diferentes estratégias de negociação e não estar dependente de uma única personalidade política.


Por exemplo, os investimentos locais para a exploração de recursos naturais pode ser feita sobre a condição de ser acompanhada por algumas reformas económicas ou políticas que sejam benéficas para o pais.


Os países que mais facilmente se adaptarem recebem investimentos maiores e lucram mais: mais postos de emprego, maior produção e riqueza local, etc…


Por outro lados e a Europa se focar no desenvolvimento de várias pipelines do norte de África ao médio Oriente pode escolher ter mais negócios com os melhores parceiros e criar um mercado concorrencial que beneficia os preços no Continente.


Recursos e geografia


Os países do Norte de áfrica tem os recursos mas falta o know how e o dinheiro. A Europa não tem os recursos mas tem o know how e o dinheiro.


A proximidade geográfica com a Europa, a falta de parceiros ricos a Sul e a presença de competidores importantes a Oriente (Arábia Saudita, Iraque, Irão) faz com que a Europa seja o parceiro ideal para os países do Norte de África e estes o parceiro ideal da Europa.


Segurança


Aumentar a dependência energética do Norte de África e Médio Oriente poderá ajudar a Europa a lidar com uma Rússia cada vez mais agressiva no plano politico e militar.


Ao contrário da Rússia, os paises do Norte de África, não estão constantemente a atacar as instituições de ocráticas europeias ou a cometer agressões militares contra paises vizinhos europeus.


A Rússia, por várias vezes, já demonstrou ser capaz de usar os fornecimentos de gás como arma política e aumentar a dependência europeia do gás russo (nora stream II) é um risco existencial para o futuro das democracias europeias.


Por outro lado, o investimento conjunto que estes países precisam fazer em segurança pode ser relevante para ajudar a combater células terroristas (se é que isso ainda é considerado um problema) e limitar o impacto que migrações sem controlo podem ter na fronteira europeia.


A segurança, estabilidade e crescimento económico do norte de áfrica é essencial para a segurança europeia: diminui a pressão política que potencias agressivas queiram fazer; diminui crises humanitárias nas suas fronteiras; aumenta trocas comerciais locais; dá mais controlo sobre suplly chains, etc…


Ambiente e pobreza


Existe um problema que se coloca hoje em dia: como combater as alterações climáticas diminuindo o consumo de combustíveis fósseis e ao mesmo tempo combater a pobreza mundial quando muitos países dependem da venda desses combustíveis?


Se por um lado a Europa precisa do gás e petróleo, por outro estará cada vez mais interessada em arranjar outras formas de energia renovável menos poluentes como a solar ou eólica.


O que seria dos países do Norte de África, como Argélia, se a Europa deixa-se de comprar gás?


No entanto, os países do Norte de África tem uma vantagem estratégica importante para eles e para a Europa: Sol e muito deserto!


Por outro lado, toda a insfraestrutura construida para transporte de gás pode ser adaptada para o transporte de hidrogénio verde mantendo uma diversidade de fontes energéticas para a Europa e rendimento para os países africanos!


No curto e médio prazo a Europa precisa do gás e petróleo da África do Norte. No médio e longo prazo precisa de hidrogénio e energia solar. Estas alterações permitem substituir parte das receitas da queda de consumo de gás e petróleo.


A Europa pode usar os vastos territórios do Norte de África para produção de energia solar. Isso implica investimentos em infraestrutura e reformas políticas e económicas que permitam estabilidade e crescimento.


A Europa não vai salvar o ambiente com o empobrecimento da África do Norte!


Passagem para o Índico e diminuir a relevância chinesa


O aumento de estabilidade politica e social no Norte de África com investimentos europeus pode ajudar a desmoralizar algumas indústrias para mais perto da Europa diminuindo o impacto que a China pode ter nas supply Chains do Continente.


Por outro lado o Egipto permite a passagem direta para o Índico e, nesse sentido, deveria ser um parceiro estratégico e vital importância para os europeus.


A estabilidade e crescimento do Norte de África daria aos europeus maior capacidade de expandirem influências políticas e económicas para o Índico ajudando a economia local a crescer e ao mesmo tempo diminuir a importância da China nas cadeias de abastecimento mais relevantes.


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IMAGEM: A Belt and Boat europeia. A estabilização do corredor que faz o contacto entre o mediterrâneo e o Índico deveria ser uma prioridade estratégica para a Europa.


Conclusão


A Europa é pobre em alguns recursos energéticos estratégicos e, geograficamente, está rodeada de potências agressivas, instabilidade e pobreza.


Se a Europa não fizer nada, então, acabará consumida por essa agressividade, instabilidade e pobreza.


No entanto, geograficamente, a Europa tem condições ótimas para a sua segurança e estabilidade nos países do Norte de África, mas os europeus não tem sido capazes de capitalizar essa vantagem.


A falta de recursos em combustíveis fósseis contrasta com a diversidade de oferta nas suas fronteiras. A capacidade tecnológica e o mercado europeu tem tudo para fazer com que esses países compitam para poderem vender nesse mercado.


Na minha opinião, a incapacidade europeia em explorar essas vantagens deve-se à falta de um projeto europeu comum que permita a criação de um exército com capacidade de projeção militar e uma política externa comum que permita criar parcerias e projetos importantes.


Leituras interessantes


http://profadvanwijk.com/wp-content/uploads/2019/09/Hydrogen-the-bridge-between-Africa-and-Europe-5-9-2019.pdf


https://www.pipeline-journal.net/news/trans-africa-gas-pipeline-bolster-growth-continent-and-link-africa-closer-europe


https://www.mdpi.com/1996-1073/12/24/4685/htm


https://ecfr.eu/publication/spoiler-alert-how-europe-can-save-diplomacy-in-libya/


https://www.cer.eu/insights/europe-cant-ignore-libya


https://www.naturalgasworld.com/hydrogen-europe-looks-to-north-africa-and-ukraine-for-renewable-energy-gastransitions-78679


https://newenergycoalition.org/custom/uploads/2019/10/Ad_van_Wijk.pdf

Comentários

  1. Boa noite, Nuno
    "Um exército com capacidade de projeção militar..." Um exército agressivo como o dos Estados Unidos da América e como o da Rússia que o senhor diz pôr em perigo a Europa, Logo excluindo a Europa de uma das suas parcelas?
    " e uma política externa comum que permita criar parcerias e projetos importantes" = a uma política vantajosa para o mais forte a tal Europa com "um exército com capacidade de projeção militar".
    Quer dizer continuar a ser «colonialista/predador», após o colonialismo?
    Eu não quero essa Europa, como não quero os Estados Unidos da América e Rússia que temos.
    Zé Onofre

    ResponderEliminar
  2. Bom dia

    Um exército com capacidade de projeção militar não significa que seja um exército agressivo. Significa que tem capacidade de mobilização efetiva para cumprir determinadas missões.
    Não estou a excluir a Europa de uma das suas parcelas.
    Estou a constatar um facto simples: essa parcela está cada vez mais agressiva contra o resto da Europa!Os EUA e a Rússia são muito diferentes!
    No entanto, só o facto de termos a Rússia a investir em capacidades militares e a usá-las contra a Europa diz muito acerca da necessidade de um exército comum.
    Politica externa comum não significa colonialismo. No caso da Líbia, por exemplo, significa ter uma ação concertada que permitisse a vitória da diplomacia em vez de uma abordagem competitiva e ineficaz entre países europeus, o que facilita a vida a atores estatais como a Rússia e a Turquia!
    Não interessa o que nós queremos porque não temos hipótese de fazer escolhas pelos outros. Ou seja os EUA, a Rússia e a China vão continuar sempre a existir. O que interessa é a nossa capacidade de adaptação a um mundo onde essas potências existem!
    Não compreendo sinceramente como o que eu escrevi ao longo de todo o texto pode ser entendido como exércitos invasores e colonialismo!

    ResponderEliminar
  3. Boa noite, Nuno
    No meu entender a diplomacia não necessita de uma "força armada" por trás.
    A diplomacia faz-se por palavras em que os "acordantes" vejam vantagens no acordado.
    Não sei que é que os europeus/americanos olharam sempre a Rússia de esguelha. Se a Rússia defende o que acha serem os seus interesses é agressiva. Quando os Estados Unidos da América do Norte vão para o Iraque para defenderem os seus interesses; instalam-se no Golfo Pérsico para defenderem os seus interesses; Intervieram no Vietnam para defenderem os seus interesses; Fazem um pacto com a Austrália e o Reino Unido para defenderem os seus interesses; Intervieram no Chile para defenderem os seus interesses; Fazem um bloqueio a Cuba para defenderem os seus interesses. Instalam-se em vários pontos espalhados pelo Mundo e tão longe do seu Estado para defenderem os seus interesses, isto não é agressividade?
    Penso que não podemos ter dois pesos e duas medidas, para analisar o comportamento dos Estados.
    Na minha opinião todos os países que se apoiam na força militar para negociarem diplomaticamente, são Estados agressivos.
    Sinceramente não gostaria de ver uma "UE" a competir militarmente seja com que Estado, ou Aliança Militar for.
    Quem se apoia na força para negociar está a exercer um poder irracional, igual ao que os Europeus do SÉC. XV ao SÉC.XIX, usaram em África, e nas Américas.
    Ficarei feliz quando o que estiver em causa não seja os interesses de "ESTADOS", mas que se cuide dos interesses da "Humanidade".
    Às tantas desejamos o mesmo, talvez diverjamos apenas nos métodos.
    Peço desculpa pelo longo texto, e não ter conseguido ser sintético.
    Tenho tentado sempre ser correcto na exposição dos meus pontos de vista. Espero tê-lo sido.
    Um bom ano
    Zé Onofre

    ResponderEliminar
  4. Bom dia

    Eu também espero ser correto na exposição dos meus pontos de vista.

    Não acredito que softpower exista sem hardpower. Diplomacia não funciona quando uma das partes não deseja negociar. O Tibete aprendeu isso da pior maneira.

    A Rússia é agressiva e os seus interesses não são puramente defensivos. A NATO tem uma postura defensiva, a Rússia não.

    Os EUA estão longe de serem perfeitos ou um exemplo a seguir. No entanto não posso concordar com a forma como os exemplos foram usados: esquecendo as piores ações da Rússia e misturando uma série de factos sobre os EUA, que deveriam ter sido contextualizados.

    Quanto à Europa não tem outra hipótese que não seja competir militarmente. Veja o aumento de despesa militar da Suécia?! Não tem outra hipótese. Se os nossos vizinhos são agressivos e tem preferência pelo uso de força militar nós temos a obrigação de garantir que nos sabemos proteger.

    Uma posição e força e uma posição irracional são 2 coisas diferentes. Não temos de ser fracos para ser inteligentes!

    Boas festas!

    ResponderEliminar
  5. Boa Tarde
    Desde sempre que o "Ocidente" olhou de soslaio a Rússia, aina ela sequer era dos Czares. Cada passo que ela desse para Ocidente, Sul ou Oeste tinha a Inglaterra, a França e a Alemanha à perna.
    Não é que eu defenda o expansionismo russo. Agora que moralidade tinham aqueles países europeus para se oporem à Rússia, e outros como Portugal e Espanha, quando se expandiam por Terras de outros povos, na Ásia, África, Américas e até no Médio Oriente. Dois pesos e duas medidas, não lhe parece?
    Quanto a mim defendo a atitude de Mahatma Gandhi - agora estendido aos países mais fracos - Greve de Braços caídos. Foi assim que a Índia venceu o Império Britânico.
    Que façamos um Ano Novo melhor do que este.
    Zé Onofre

    ResponderEliminar
  6. Boa noite

    As grandes potências europeias sempre mediram forças e tentaram controlar o poder crescente dos concorrentes:
    Nas guerras napoleónicas a Rússia lutou ao lado da Prússia, Áustria e Reino Unido contra a França.
    Na primeira guerra mundial a Rússia lutou ao lado da França, Itália, Reino Unido e EUA contra a Alemanha, Império Austro-húngaro e Império Otomano.
    A segunda guerra mundial começa com um pacto germano-soviético e acaba com Alemanha, Itália, Roménia a lutarem contra a URSS, França, Reino Unido e EUA.
    Portanto, não compreendo de onde vem essa ideia do Ocidente a olhar de "soslaio" a Rússia desde sempre!
    Nos anos mais recentes muitos países europeus (França e Alemanha) mostraram muito interesse em ter boas relações com a Rússia!

    Também não compreendo como se pode misturar o comportamento russo de hoje em dia com a falta de moral de muitos países pelos erros que cometeram no passado!
    Não me parece que existam 2 pesos e 2 medidas mas sim uma falta de contextualização histórica nos exemplos que usa!

    Fico feliz que defenda a posição de Gandhi. Mas se a Índia venceu o Império Britânico foi porque esse Império tinha alicerces democráticos fortes que permitiram a vitória da Índia. A greve de braços caídos ou as greves de fome típicas do Gandhi não teriam muito sucesso em locais como Auscwitz!
    Quanto ao Gandhi deixo na memória a sua descrição "as one of the great statesmen of our time" de um tipo chamado Mussulini! Vale tudo para bater o Império Britânico

    Boas entradas em 2022

    ResponderEliminar

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