Vamos pensar numa simples questão: porque é que na Europa nunca se desenvolveu um império como o chinês? Porque é que foi impossível unificar o bloco europeu numa mesma entidade politica?
A resposta com a qual concordo mais é simples: geografia!
A geografia europeia com as suas florestas, montanhas e rios representou sempre um desafio muito grande para qualquer grupo criar uma identidade politica e social comum. Em vez disso surgiram variados grupos étnicos com identidades sociais, culturais, religiosas e políticas distintas.
Enquanto na China, os Han dominaram todos os outros grupos étnicos através da guerra, na Europa, os diferentes grupos étnicos encontraram a coexistência através de atritos constantes.
Um continente em guerra

Pode não parecer, a partir dos nossos sofás do século XXI, mas o continente europeu esteve constantemente em guerra. Desde Júlio César a Napoleão!
E a maior característica desses confrontos era o desejo expresso de não deixar uma única potência dominar o continente.
Após a revolução Francesa, os franceses tornaram-se a potência dominante e originaram s guerras napoleónicas.
Rússia, Reino Unido, Áustria e Prússia juntaram-se para garantir que Napoleão não vencia.
Poucos anos depois foi a vez do Império Alemão, Austro-húngaro e Otomano se juntaram para serem derrotados pela Rússia, França, Reino Unido e EUA.
A Itália, parceira alemã, acabou a primeira guerra mundial a lutar do lado das forças aliadas!
A segunda guerra mundial começou com o pacto germano-soviético e acabou com a URSS a lutar junto do Reino Unido e EUA contra a Alemanha e Itália.
Só um homem conseguiu unir a Europa. Esse homem foi Napoleão. Uniu a Europa toda contra ele.
Independentemente de todos os fatores históricos, sociais, políticos ou tecnológicos, que originam as guerras, há uma verdade intemporal na história europeia: os europeus estão dispostos a lutar unidos para não se unirem.
Um tempo de paz
A segunda guerra mundial, foi em números absolutos, a guerra mais sangrenta de que há memória.
Foi também um ponto de viragem na história em que as potência europeias começaram a ver o seu declínio.
Após a segunda guerra mundial, os países europeus formaram a União Europeia de forma a conseguir lidar criar uma dependência económica e laços de união que facilitassem a resolução de disputas sem se recorrer à guerra.
Foi um sucesso sem paralelo na história europeia. A Europa está sem uma guerra entre grandes poderes há quase 80 anos. Nunca na história da Europa, tanto tempo passou sem conflitos militares relevantes.
Este tempo de paz foi possível devido à cooperação de países europeus, ajuda financeira e proteção militar dos EUA.
E em 80 anos, os europeus passaram de nacionalistas violentos para ambientalistas pacíficos. A única ameaça para os europeus atuais é em relação à desconfiança social relativamente aos seus governos eleitos democraticamente!
O conforto e a segurança providenciados, garantiram, que hoje em dia, os europeus não querem guerra, não procuram a guerra e parece que nem sequer conseguem reconhecer os perigos e ameaças de outros países.
Este tempo de paz, especialmente nos últimos 20 a 30 anos, tem sido marcada pela cada vez maior irrelevância política, militar e cientifica dos países europeus
A trilogia europeia
O que nos traz a uma trilogia europeia que condiciona a forma como a Europa consegue responder aos desafios atuais:
1 - Historicamente, os europeus lutam juntos para se manterem independentes uns dos outros;
2 - Atualmente os europeus vivem num mundo de conforto e segurança que os cega para os perigos vindos de fora;
3 - A União Europeia foi pensada para que grandes potências não se destruíssem e nunca para que pequenas e médias potências se pudessem proteger do ataque de grandes potências.
Esta trilogia marca os dilemas que os europeus precisam resolver para conseguir uma Europa do futuro.
Os europeus precisam de se juntar por vontade própria numa unidade politica estável mas a história impede-os de o fazerem;
O projeto politico europeu exige um elevado nível de confiança social, mas a história antiga não permite essa relação de confiança entre povos e a história recente (nazismo) dificulta a relação de confiança entre eleitores e governantes!
O principal perigo vem de fora mas os europeus vivem fechados para o que sentem como ameaças internas!
O pensamento europeu é dominado por um sentimento de desconfiança interno e um sentimento de culpa em relação ao mundo externo!
Dados conclusivos
Os países europeus são cada vez mais irrelevantes! Grandes blocos demográficos vão dominar o mundo: Brasil, EUA, Índia, China.
Uma comparação do que são os países europeus e do que é a Europa não deixa margens para dúvida:
1 - A União Europeia é o segundo maior mercado mundial. Mas em separado os países europeus são cada vez mais insignificantes.
A Alemanha ocupa um 5 lugar seguido do Reino Unido em 6. Em pouco tempo a Índia vai ultrapassá-los como ultrapassou a França, Espanha e Itália.
Um mercado com potencial mas não unido que dificulta o crescimento de empresas europeias.
Numa lista das empresas com maior rendimento só aparece uma alemã em 10º lugar (Volkswagen). Os outros lugares são dominados pelos EUA (5), China (3) e Japão (1).
Uma lista das empresas com maior Market Cap mostra um domínio avassalador de empresas americanas. (1) A primeira empresa europeia aparece em 18 lugar!
No futuro se a Europa desejar competir com grandes potências como os EUA, China ou Índia vai precisar e o fazer como uma única entidade politica!
2 - Os exércitos mais fortes são respetivamente EUA, Rússia, China, Japão e Índia. A França surge em 6º lugar, a Itália em 8º e o Reino Unido em 9º.
Mas um exército europeu facilmente seria a 2ª ou 3ª melhor força militar!
Podemos usar um valor aproximado do número e submarinos por pais para perceber o potencial de uma Europa unida.
Os países com mais submarinos são (2): China com 79, EUA com 68, Rússia com 64, Coreia do Norte com 36, Irão, Coreia do Sul, Japão, Índia, Turquia e Reino Unido.
Precisamos chegar ao 10 lugar da lista para encontrar um país europeu! No entanto se somarmos todos os submaerinos dos países europeus ficamos com um total de 68 incluindo o Reino Unido e 57 sem o Reino Unido.
A conclusão é simples: a Europa é forte mas os países europeus são fracos!
O grande desafio da Europa do futuro é saber como ultrapassar as suas limitações históricas para criar uma identidade política atual que nos permita superar os desafios do futuro!
Referências bibliográficas
1 - https://companiesmarketcap.com
2 - https://worldpopulationreview.com/country-rankings/submarines-by-country
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