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O que está em causa na Ucrânia?

Existem várias razões pelas quais a guerra na Ucrânia não é um problema unicamente ucraniano.

Nas próximas linhas vou elaborar alguns pontos que me parecem muito relevantes e que estarão em causa no atual conflito.

Proliferação nuclear

A Ucrânia trocou o seu arsenal nuclear por segurança. Em 1994 assinou a declaração trilateral com a Rússia e os EUA onde prescindia do seu poder nuclear em troca de apoio financeiro e segurança.

Em 2022 a Ucrânia foi invadida pela Rússia e não recebeu apoio suficiente dos EUA para a sua própria defesa.

Se a Ucrânia é destruída, todos os outros países vão preferir desenvolver bombas nucleares e aqueles que as tem não vão querer prescindir delas a troco de promessas de segurança de potências com um historial de não cumprimento.

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O futuro da Europa e da NATO?

O sucesso na defesa da Ucrânia está dependente de uma ação concertada e assertiva do Ocidente.

Se a Ucrânia for conquistada e Kiev ficar com um governo fantoche a mando de Moscovo como é que o mundo vai olhar para o Ocidente? E como é que os paises ocidentais vão conseguir lidar com esta derrota?

A queda da Ucrânia representa o final de uma ordem internacional dominada pelo Ocidente.

Se as democracias europeias não conseguem defender uma democracia europeia contra uma ditadura para que é que servem mesmo?

Que garantias podem ser levadas a sério em África, na América do Sul? No Índico? e Especialmente, no pacífico?

Pode a queda da Ucrânia alimentar movimentos anti-democráticos pelo mundo?

Por outro lado, uma resposta unida e forte por parte dos países europeus pode criar um novo sentimento de pertença europeia. Um continente mais unido e com maior capacidade de afirmação internacional!

A China está a ver

O ator menos falado, e provavelmente mais importante, está a olhar de longe, os acontecimentos.

Na minha opinião, a liderança chinesa deve estar a sentir-se pressionada a tomar decisões, num tempo que não foi escolhida por ela. 

Putin está a definir a velocidade da corrida e isso pode levar a liderança chinesa a cometer erros que podem vir a ser pesados… para todos!

Por outro lado, a China sabia o que ia acontecer e não pareceu muito preocupada em tentar impedir. Segundo consta, os próprios EUA pediram ajuda e a proximidade dos lideres de Beijing e Moscovo parece sugerir que os planos eram bem conhecidos.

Numa situação ideal a Rússia conseguiria conquistar a Ucrânia e desgastar as potências ocidentais, pelo menos o suficiente para a China poder seguir com os seus planos a Oriente.

Mas 3 dias após os ataques à Ucrânia e duvido que os chineses se sintam confiantes em qualquer parceria com o urso siberiano.

Há 3 pontos que me parecem importantes, na perspetiva chinesa: 

1 - Qual o verdadeiro nível de força da Rússia? 

2 - Qual a resposta Europeia?

3 - Qual o nível de prontidão americana para apoiar os europeus e, ao mesmo tempo, manter o grosso da sua capacidade direcionado ao Pacífico!

Uma derrota pesada da Rússia pode torná-la num peso morto, enquanto parceiro. Não me parece que a China queira enviar soldados para Ocidente para proteger um aliado que se torna cada vez mais inconveniente. Especialmente quando não tem qualquer interesse em atacar a Ucrânia.

Na pior das hipóteses, uma mudança de liderança em Moscovo, pode tornar a Rússia um aliado ocidental. Isto poderia ser um pesadelo para Beijing!

Que pretensões pode ter Beijing no mundo com uma NATO e um AUKUS com força redobradas e sem o apoio da principal potência central do eixo euro-asiático?

E podem estas considerações fazer Beijing pensar que é preferível agir de imediato a esperar um futuro mais isolado?

As novas incursões de aviões militares chineses no espaço aéreo de Taiwan parecem sugerir que Beijing poderá estar a estudar essa possibilidade.

As diferenças geográficas na Ásia são claramente favoráveis à China, especialmente, se as alianças militares sobre comando dos EUA se mostrarem débeis.

A China tem um exército superior à Rússia, a Ucrânia é muito maior que Taiwan  e existe uma concentração e poder de democracias europeias muito superior do que no pacífico.

Na Europa todos os principais países estão ligados por terra ou muito próximos (Reino Unido). Mas na Ásia a maioria dos países são mais pequenos e estão mais afastados de Taiwan.

Qual a verdadeira vontade de lutar por uma ilha distante?

Na melhor das hipóteses, um Putin cada vez mais desconectado da realidade, e em desespero, pode decidir lançar um ataque nuclear a alguns países europeus.

Neste caso, para a China, não fazer nada seria a sua melhor jogada. Mas pode um gigante cheio de sonhos ficar parado e ver a história acontecer?

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Ditadura vs democracia

O ataque da Rússia à Ucrânia, nesta fase, resume-se a um ataque de uma ditadura agressiva a uma democracia que prescindiu do seu poder nuclear e que procura segurança para os seus cidadãos.

Uma coisa parece certa. A Ordem Internacional como a conhecemos está morta.

A vitória da ditadura pode significar que a nova Ordem mundial vai ser decidida no eixo Beijing-Moscovo.

A vitória da democracia pode significar que um eixo mais dinâmico atlântico-pacifico pode ser mais relevante do que o desejo de um único ditador poderoso!

Para já a resposta de muitas manifestações pelo mundo parecem mostrar um apoio quase universal à luta ucraniana!

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Pensamento finais

A Ucrânia não pode cair. Isto deveria ser óbvio para qualquer europeu.

Não é uma guerra que deva ser travada pelos EUA mas sim pelos europeus. Uma derrota pesada de uma ditadura agressiva seria a maior afirmação de liberdade deste início de século.

No futuro da Ucrânia está o futuro da Europa. Mas também pode estar o futuro da Ordem Internacional.

O apoio observado a favor da Ucrânia desde a recusa de paises amigos da Rússia apoiarem diretamente o seue sforço de guerra, os terramotos politicos na politica externa europeia ou os movimentos da sociedade civil incluindo as ações do grupo de hackers Anonymous deveria ser muito bem estudada por qualquer outra ditadura que tenha pretensões semelhantes às de Putin!

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