Em artigos anteriores abordei a questão da geografia e da história europeias para tentar compreender a razão pela qual nunca surgiu um império capaz de conquistar todo o continente.
Gregos, Romanos, Franceses, Alemães todos tentaram. Mas independentemente da força e das vantagens estratégicas que cada um tinha, nenhum foi efetivamente capaz de o fazer.
Potência estrangeiras também tentaram. Os Mongóis ficaram à porta e vários exércitos muçulmanos tentaram algumas vezes. Tanto na península ibérica como às portas de Viena, o falhanço foi o resultado final.
Um ponto que parece comum na história europeia é a capacidade que os povos europeus tem de se unir para impedir alguém de os juntar!
A atualidade e uma doença social auto-imune
A atualidade europeia não é comum. Europeus pacíficos, amantes do ambiente e anti-imperialistas. 80 anos sem guerra marcam um período histórico sem precedentes na Europa.
A consciência da sua história mais imediata, a segurança providenciada pelas parcerias comerciais e militares trans-atlânticas fez com que os europeus entrassem numa fase de constante desconfiança face aos seus governos democraticamente eleitos, vergonha a enfrentar o mundo externo face ao seu passado.
Isto criou uma dissociação entre o mundo real e a forma como o povo e as elites europeias vivem esse mundo.
Vivemos na Europa que não gosta dos imperialistas americanos, ao mesmo tempo que vive sem preocupações por causa da segurança que os americanos garantem.
É o Europeu ambientalista contra as minas de lítio porque facilmente compra um carro elétrico e iPhones!
O Europeu que fecha reatores nucleares e aumenta a dependência energética da Rússia porque as guerras são coisa do passado!
É o europeu que gosta dos fundos europeus ao mesmo tempo que ataca a ideia de Europa.
Uma sociedade onde só existem liberdades mas não deveres, onde não são necessários sacrifícios porque tudo é garantido e onde simplesmente não existem perigos externos. Nós somos o problema!

Fonte: https://www.ft.com/content/bdac2df6-598a-11e6-9f70-badea1b336d4
Europa e Putin
A ideia de União Europeia foi feita no sentido de ajudar os países europeus a viverem em paz sem entrar constantemente em conflitos armados.
Inicialmente foi uma forma de evitar que grandes potência entrassem em constante conflito umas com as outras. No entanto a União Europeia nunca foi pensada como uma forma de juntar pequenas e médias potências para se protegerem de outras grandes potências.
Os países europeus são cada vez mais irrelevantes. É claro para qualquer pessoa que a Europa junta tem força, mas separada torna-se cada ez mais irrelevante.
Mas como ultrapassar as barreiras históricas que separam os europeus e faze-los acordar deste marasmo social e ideológico em que se encontram?
É nesta fase, em que Putin entra em cena. Putin representa o tipo de choque externo que obriga os europeus a trabalhar em conjunto e a ultrapassar as limitações impostas pela geografia e pela história.
Pode a Europa existir mutilada por estados falhados dominados por Moscovo?
Qual o nível de agressão que os europeus precisam sentir para dizerem que chega?
Podem os Europeus ver Kiev, Varsóvia, Riga ou Budapeste reduzidas a escombros como aconteceu na Chechenia? Ou na Georgia?
Querem os europeus voltar a um período de guerra fria em que a Rússia consegue domínio sobre milhões de europeus de leste?

IMAGEM: podem estas imagens da Chechénia tornar-se aceitáveis em Kiev ou Budapeste?
Pensamentos finais
Putin está a levantar uma questão muito simples aos europeus: onde começa e acaba o conceito de democracia e liberdade que define as democracias europeias ocidentais?
Qual a vontade que os europeus tem de lutar por essas ideias?
Putin é o primeiro grande desafio geopolítico que as pequenas e médias potências europeias tem de enfrentar juntas!
E a resposta, que pareceu demorar inicialmente, parece estar a querer tomar forma.
Países nórdicos estão a aumentar o investimento militar e a mostrar vontade de entrar para a NATO!
A própria NATO está mais dinamizada e a Alemanha fez o incrível esforço de acabar com o projeto do Nord Stream II.
Será que a Europa vai entrar numa situação em que todos os países europeus tem de se mostrar como mais dedicados que todos os outros?
Não sou a favor da guerra, e muito menos uma guerra que pode custar a vida a milhares ou milhões de pessoas e lutada em território europeu.
Mas a verdade é que são as crises que nos levam à mudança. Se no final tivermos mais Europa ficaremos pior?
E será esta noção de Europa forte e unida, capaz de ultrapassar os seus fantasmas históricos, apelativa aos próprios russos de uma Rússia democrática e moderna?
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