Nas próximas linhas vou tentar imaginar o tipo de raciocínio que a liderança em Beijing possa estar a fazer no que concerne aos seu desejo de invadir Taiwan.
Eu acredito que Beijing sabia dos planos de Moscovo para atacar a Ucrânia há mais tempo do que estão dispostos a admitir.
Permitiram esses planos, na medida que compraram a propaganda russa de um exército impressionante que iria defrontar um pais pequeno, rodeado de democracias com lideranças fracas e corruptas.
Creio que Pequim estaria interessado nesse tipo de conflito, na medida que desgastaria as forças ocidentais numa área afastada do seu ponto de interesse: Taiwan.
Depois de uma semana de combates na Ucrânia não sei se Beijing ainda achou esta invasão uma boa ideia.
Existem 3 aspetos que, na minha opinião estão a ser analisados por Pequim:
1 - nível de eficácia das forças militares russas;
2 - resposta europeia;
3 - nível de desgaste americano na Europa que possa afetar uma resposta mais decisiva no Pacífico.
Acho que a China não está a gostar do que observa.
As forças russas estão claramente muito aquém do que publicitam.
Os europeus uniram-se, de uma forma impensável há 2 semanas, com mudanças de 180º em politica militar.
Os EUA não sofreram nenhum desgaste significativo e estão prontos para qualquer desafio no Pacífico.
Para piorar a situação, a resposta da comunidade internacional tem sido muito negativa para a Rússia e, não acredito que a China queira esse tipo de backlash.
Acredito, nesta fase, que a China está a ponderar os seguintes pontos:
Parceiro pouco fiável

Atualmente, eu não acredito que os chineses vejam a Rússia como um parceiro muito fiável.
Claramente o seu exército não está à altura da propaganda que faz. Se a China invadisse Taiwan seria a 3ª Grande Guerra Mundial, o que significa que a Europa certamente entraria em guerra com a Rússia.
Tendo a Europa 3 vezes a população da Rússia, mais de 10 vezes o seu PIB e uma indústria civil que rapidamente pode ser militarizada qual a capacidade Russa de manter uma guerra com a Europa?
Especialmente depois de todos os problemas militares que temos observado na invasão da Ucrânia com problemas de logística e corrupção?
Mas se a Europa/NATO entrar em guerra com a Rússia, ao mesmo tempo que a China invade Taiwan, e Putin decidir recorrer a armas nucleares, a China arrisca também sofrer uma resposta nuclear.
Quer a China um parceiro instável que pode definir dinâmicas de guerra que a própria China pretende controlar?
Na pior das hipóteses, para a China, pode existir uma revolução na Rússia que coloca um governo neutro ou mais favorável a boas relações com o Ocidente.
Se isto acontecesse a China ficaria numa situação mais complicada e de maior isolamento.
Uma guerra em várias frentes?
Numa guerra deste tipo a China estaria muito dependente do petróleo russo, mais uma vez, a parte fraca da equação.
Isto significa que a China deveria ajudar a Rússia para assegurar a continuidade de operação de extração e entrega de combustíveis fósseis.
Mas a China nunca mostrou qualquer interesse num conflito armado afastado das suas fronteiras e dos seus interesses históricos.
E dificilmente a China desejaria uma guerra em várias frentes e com linhas de abastecimento muito afastadas dos acontecimentos principais!

Falta de tempo e algumas incertezas futuras
A Rússia parece ter conseguido aquilo que menos queria.
Uma NATO renascida militarmente e com potencial de ampliar claramente o seu poder com novas adições europeias.
Ao mesmo tempo acordou uma Europa adormecida em décadas de pasmaceira pacifista, sub-investimento militar e uma total ausência de política externa realista.
A questão que fica agora é: como é que estas mudanças observadas na Europa vão afetar a relação com a China?
De que forma a consciência da necessidade de defender a autonomia nacional e a democracia vão afetar o comportamentos dos europeus face aos desafios asiáticos?
Até agora, a China parece ter olhado a Europa como irrelevante. Algumas vezes mais como uma peça que pode manipular nos seus desaguisados com os EUA. Mas essa dinâmica pode ter mudado radicalmente.
Fica a questão de saber se a China está a sentir um pressão e a falta de tempo para dominar Taiwan.
Uma Rússia mais enfraquecida, uma europa militarmente renascida, uma NATO forte, boas relações entre democracias ocidentais e asiáticas, crescimento do AUKUS, partilha de interesses comuns e a resposta internacional contra a Rússia não são exatamente as melhores condições para invadir Taiwan.
Pode a China achar que está a ficar sem tempo e decidir tomar uma ação mais precipitada?
Longo prazo
Talvez a abordagem de longo prazo seja mais útil.
Tentar beneficiar das dificuldades russas para garantir combustíveis fósseis a preços mais acessíveis e vantagens comerciais e industriais na Rússia, ao mesmo tempo que aumenta o seu poder militar e relações diplomáticas com potenciais parceiros.
Quem sabe, mais tarde poderão ter uma melhor oportunidade de invadir Taiwan.
Na melhor das hipóteses, um Putin mais desesperado, conseguiria lançar um ataque nuclear na Europa (não acredito!) e seria recebido com uma resposta semelhante.
A destruição que se seguiria dificultaria muito uma resposta mais concertada do Ocidente e da AUKUS a uma invasão de Taiwan.
Por outro lado a China pode tentar beneficiar da fraqueza russa. Mais isolados e com o desgaste das suas forças militares, os russos podem estar mais tentados a vender petróleo a preço mais barato à China.
No entanto, o petróleo que a China compraria à Rússia iria provocar baixa de preços noutros concorrentes que não poderiam vender à China. Provavelmente o Ocidente ocuparia o seu lugar melhorando parcerias comerciais com esses países.
Não acredito que esta estratégia beneficiasse Pequim. Aumentar a dependência energética da Rússia em prejuízo de perder parcerias comerciais com outros governos não seria do interesse chinês.
Problemas internos
Outro ponto importante está relacionado com os problemas internos que a China enfrenta atualmente.
Uma crise do mercado imobiliário, uma economia mais fraca e problemas na politica de tolerância “Covid-0” de Beijing são problemas com que o PCC tem de lidar.
Uma invasão de Taiwan com possíveis consequências internacionais iria afetar ainda mais os mercados chineses e a pressão sobre o PCC.
O PCC tem claro receio da sua própria população. Numa resposta internacional, como a observada na Ucrânia, o PCC teria de lidar com ataques de hackers que iriam colocar em causa o seu controlo estatal, ao mesmo tempo que o descontentamento popular aumentaria gradualmente.

Conclusão
Será que o PCC vai ceder à percepção de falta de tempo face aos acontecimentos atuais?
Nesse caso, creio que a invasão de Taiwan seria a sua ação mais certa. Existem claras diferenças estratégicas entre ter os chineses a ocupar Taiwan ou os Russos a ocupar a Ucrânia.
Mas a ocupação atual de Taiwan iria despoletar acontecimentos no Pacífico e na Europa que enfraqueceriam ainda mais a Rússia e obrigariam os chineses a um pesadelo logístico de uma guerra em várias frentes e afastada das suas fronteiras.
Parece-me que os riscos de uma invasão de Taiwan são muito superiores a qualquer recompensa.
O que parece irónico é que a Rússia pode tentar conquistar a Ucrânia, a China pode tentar conquistar Taiwan mas não o podem fazer ao mesmo tempo.
Pode a China estar a deixar a Rússia seguir o seu caminho de forma a perceber quais os próximos passos a dar?
À primeira vista a China tem pouco a perder com uma invasão que não fez mas pode ter muito a ganhar.
Artigo muito interessante escrito por um académico chinês sobre a possível resposta da China ao conflito russo-ucraniano
ResponderEliminarhttps://uscnpm.org/2022/03/12/hu-wei-russia-ukraine-war-china-choice/