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Isto não é a guerra de Putin

A narrativa de muitos meios de comunicação descreve o conflito russo-ucraniano como uma guerra de Putin. Não do povo russo mas de Putin. 

Só existe um responsável e o povo sofre como vítima desse tirano. O povo russo deseja a paz como todos os europeus.

Esta narrativa é um reflexo da cegueira histórica e coma ideológico europeu ocidental das últimas décadas. 

Basta um mínimo de conhecimento de história para saber que não existem ditadores sem apoio popular.

E basta ouvir um pouco do que os europeus de leste dizem para perceber imediatamente que os europeus ocidentais não fazem ideia do que é a Rússia ou da forma como pensa o povo russo.

Enquanto os europeus ocidentais vivem com estas narrativas pseudo-moralistas esquecem-se 2 coisas:

1 - fazer juízos sobre a realidade baseados em dados

2 - levantar as questões certas.

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Dados verificáveis

Existem 4 argumentos a favor do povo russo: os russos são contra a guerra, estão sujeitos a propaganda, o medo contra a ditadura, a oposição à guerra está a aumentar.

Todos estes argumentos ou são falsos ou estão grotescamente descontextualizados.

Opinião popular

O que a narrativa popular, na Europa ocidental, não quer perceber é que Putin tem o apoio popular.

Passamos décadas a enganar-nos em relação aos oligarcas russos e a Putin e agora queremos enganarmo-nos sobre o povo russo.

O europeu adora espetar facas nos olhos.

A verdade é que vários dados independentes, e a história recente, dão apoio popular ao Putin.

Em 2014, quando ocupou a Crimeia, Putin teve apoio popular e a popularidade do presidente Putin aumentou consideravelmente. Até aos 70%!

Sondagens na altura, mostravam que perto de 90% dos russos concordavam com a unificação da Rússia e da Crimeia.

Junto com a crimeia, foram atacadas as províncias de Luhansk e Donetsk. Milhares de ucranianos fugiram das suas casa. Muitos foram mortos. Mas os russos continuaram a apoiar as ações do estado russo.

Desde 2014 até 2022 perto de 13000 ucranianos perderam as suas vidas devido à agressão russa mas os russos continuaram a apoiar o estado russo.

Na fase inicial do atual conflito a maioria dos russos continua a apoiar ativamente as ações do Kremlin como foi comprovado por estudos sociológicos.

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Propaganda e medo

Um dos pontos referidos é que o povo russo está a ser enganado pela propaganda governamental.

No entanto, este ponto falha em considerar que, os russos também tem acesso a fontes de informação externa e escolhem deliberadamente acreditar na propaganda governamental.

Até há poucos dias, todos os russos tinham acesso ao google, ao twitter ou ao Instagram. Qualquer um podia ler o Washington Post ou a Foreign Affairs.

Outro ponto é o medo. Propaganda com medo é uma combinação forte.

O medo não explica o sucesso de Putin. Porque os ucranianos também tinham medo em 2014. Mas quando a maioria do população tem medo do ditador tiram-no do poder.

O medo não justifica a falta de oposição russa. Se a maioria dos russos tiver medo do Putin e não o quiser no poder, ele não fica no poder!

O medo impede a oposição russa de fazer qualquer coisa porque são uma minoria. Se existirem mais dúvidas pode simplesmente considerar-se as sondagens de popularidade entre Navalny e Putin! Navalny perde.

Vemos os protestos na rua e o descontentamento está a aumentar

Claro que sim. Mas numa população de 120 milhões vemos uns poucos milhares a protestar. São mais aqueles que vão ao último dia de abertura do Ikea do que a protestos anti-guerra.

Muito do descontentamento aumentou porque as pessoas querem ouvir spotify, e mandar fotografias para o Instagram ou comprar peças para o trator que está avariado. E não podem!

A oposição à guerra não surgiu pela defesa dos direitos do ucranianos ou pela oposição à guerra mas pelas inconveniências que as sanções ocidentais provocam.

Uma das histórias mais ridículas que surgiu no Twitter, falava sobre um tio russo de um ucraniano, que vivia na Sibéria e era um apoiantes da guerra. Uma semana depois precisou de comprar peças para o trator e não havia, por causa das sanções. Ficou imediatamente contra a guerra.

Outro exemplo, que se tornou viral, foi o da influencer russa a chorar porque iam fechar o instagram e ela não podia mandar mais fotos! Em momento algum essa influencer algum tipo problema moral com o que se estava a fazer ao povo ucraniano.

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IMAGEM: o vazio moral e humano em que a sociedade russa se tornou!

A pergunta certa?

Se esta não é a guerra de Putin, então que guerra é?

Quando paramos com narrativas ideológicas e começamos a olhar para os dados somos também obrigados a mudar as perguntas que fazemos.

Em vez de afirmarmos, de forma cega, que isto é a guerra de Putin, devemos, antes, perguntar de quem é esta guerra?

Esta é a guerra de um pais que se acha uma grande potência e com direito a ocupar paises vizinhos mais fracos! Em pleno século XXI, na Europa.

Mas esta também é uma guerra do povo ucraniano pelo direito a existir enquanto estado soberano. 

Acima de tudo é uma guerra pelo direito da existência de democracias na Europa! Tem a Ucrânia direito a existir enquanto democracia no continente europeu?

Se sim porque permitimos este ataque? Se não, qual ou quais os paises que tem direito a ser demcoracias? E quem decide isso? Moscovo?

Se é uma luta pela democracia, pela auto-determinação no continente europeu deviam os europeus ocidentais estar a combate-la?

Talvez a lógica das narrativas ideológicas seja o limitar a nossa capacidade de fazer as perguntas certas. Afinal de contas qual o pais da europa ocidental que quer responder a esta questão?

Esta não é a guerra de Putin. É a guerra que vai definir a Europa nas próximas décadas!

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Comentários

  1. Artigo muito interessante sobre a forma como os ucranianos percepcionam o apoio popular na "guerra de Putin".
    Claramente os ucranianos consideram que a maioria dos russos apoia Putin. Isto também é visível no Twitter. É altura do Ocidente abandonar as suas narrativas românticas e começar a olhar a realidade de frente!

    https://www.atlanticcouncil.org/blogs/ukrainealert/vladimir-putins-criminal-war-has-killed-the-myth-russian-ukrainian-unity/

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  2. Boa noite
    Se no dia 24 de Abril de 1974 tivesse sido perguntado aos portugueses - Concorda com a guerra nas Províncias Ultramarinas? - O sim teria 95% de apoiantes.
    Então foi uma minoria de 5% que se impôs aos 95%.
    No dia 25 inverteram-se os números.
    É a vida.
    Zé Onofre

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  3. Bom dia
    Não consigo compreender esta comparação.
    Sem concordar com a guerra do Ultramar, parece-me que é uma situação um tanto ou quanto diferente.
    O facto de ter existido um dia 25 em Portugal que não existiu na Rússia parece um forte indicativo que estamos perante 2 situações muito diferentes.
    Também me parece ter demonstrado com vários factos que estes dados não são uma simples manipulação estatística de um estado ditatorial.

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  4. Bola tarde, Nuno
    O que eu quis dizer é que quem o poder tem o povo de tal maneira adormecido e apático que lhe garante o apoio "abúlico". Com Salazar foi a mitificação do nosso passado - Terra de heróis e de Santos, foi a expansão da Fé e do Império, foi o Portugal uno do Minho a Timor e Deus, Pátria e Família não se discutem. A maioria dos portugueses vivia feliz e contente,apesar dos ordenados de miséria, das quintas arrendadas onde o camponês, pelo menos cá pelas minhas bandas, dividia as colheitas ou a quartos, o que os obrigou à emigração em massa, mas nunca a lutar contra o Estado Novo.
    Se não fosse o descontentamento dos capitães formados na Academia Militar por os Capitães Milicianos serem a eles equiparados, não teria havido Movimento dos Capitães, MFA e 25 de Abril.
    Talvez o mesmo se passe com o Povo Russo anestesiado com a grandeza do passado - Império Czarista, União Soviética (grande potência) e fundamentalmente a sacralização da Santa Mãe Rússia.
    Pode ser que por lá surja um Movimento dos Capitães, enquanto não acontecer o Povo Russo (como então o Povo Português) irá alegremente para o matadouro defender a Santa Pátria.
    Zé Onofre

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  5. Eu concordo. Mas fico sempre a pensar que os militares vem do povo e, apesar de diferentes classificações, acabam sempre por existir elos de ligação.
    Sem contradizer que o 25 de Abril foi uma revolta militar (porque o foi!), quando penso nestas coisas vem-me sempre à cabeça a frase de Joseph de Maistre "Every nation gets the government it deserves."

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