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A Alemanha de Scholz e o futuro da Europa

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Em 2017 publiquei um artigo extenso sobre a Alemanha de Merkel e o futuro da Europa.

Nesse artigo levantei uma série de problemas e fiz criticas às decisões de Angela Merckel em relação a:

1 - crise de refugiados;

2 - energia nuclear;

3 - relação com países europeus de leste;

4 - dependência da energia russa.

A Alemanha de Scholz começou com a mesma cegueira ideológica que os governos alemães anteriores.

No entanto, Putin parece ter ajudado os alemães a saírem do seu coma utópico. Após a invasão da Ucrânia, a Alemanha de Scholz fechou o Nord Stream II e aumentou os gastos de defesa com 100€ biliões adicionais.

Este passo foi uma mudança de 180º em relação à cegueira corrupta que tinha dominado a política externa alemã das últimas décadas.

Podemos assumir, então, que a liderança de Scholz, alimentada pelos crimes de guerra de Moscovo, poderá ajudar a Europa a entrar numa nova fase de crescimento e segurança?

A desenvolver a NATO com mais unidade e uma postura maisdecisiva?

Apesar de alguns pontos positivos, existem pontos que geram em mim muita insegurança, em relação ao futuro.

Nas próximas linhas irei focar essas inseguranças.

A velocidade relativa dos alemães

Independentemente das sanções, ou da ajuda militar, à Ucrânia, existe um elefante na sala. Esse elefante chama-se gás russo e a sala é claramente alemã.

Apesar da reviravolta do Nord Stream II, os alemães continuam a comprar gás russo. Esta é a principal fonte de rendimento da máquina de guerra de Putin, fazendo com que o estado alemão seja o principal financiador dos crimes de guerra russos contra a população ucraniana.

Apesar dos apelos de virtualmente quase todos os países europeus, Scholz já deixou claro que não vai prescindir do gás russo tão cedo. De acordo com a liderança alemã a indústria e economia alemã precisam de tempo para se adaptarem a novas fontes de energia.

Esta mensagem está a ressoar por toda a União Europeia como hipócrita. Especialmente nos países do Sul da Europa.

Já várias pessoas salientaram, que na altura da crise do sul da Europa, os alemães pregavam que as mudanças rápidas eram as menos dolorosas. No entanto, parece que isto só se aplica aos países do Sul da Europa e não aos alemães.

Esta hipocrisia torna-se mais dolorosa quando se analisam as consequências para a economia alemã em comparação com as consequências sentidas pelos países do sul a Europa sobre a batuta ultra-rápida de Angela Merckel.

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Esta posição da Aleamnha torna-se ainda mais incompreensível face às alternativas geográficas existentes, à capacidade financeira disponível e ao Know How europeu.

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Um pais pacifico

A Alemanha é o quinto maior exportador de armas a nível mundial, de acordo com a Statista. A França, o 3º. E para futura lembrança, estes foram os 2 países europeus que impediram  entrada da Ucrânia na NATO em 2014.

Mesmo, após as sanções contra em Rússia em 2014, devido à ocupação da Crimeia, a Alemanha e a França continuaram a vender armas aos Russos, de acordo com investigações independentes. (1)

O que torna a sua postura face à agressão russa, vergonhosa, no mínimo.

A Alemanha vendeu armas a países agressores (que foram usadas para agressões declaradas e violações do direito internacional), manteve algumas vendas mesmo depois das sanções de 2014 e no final foi o pais europeu que mais demorou a apoiar militarmente a Ucrânia.

A Alemanha proibiu outros países de entregar armas à Ucrânia (Estónia) e proibiu o seu espaço aéreo a aviões ingleses que transportavam ajuda militar.

Quando finalmente decidiu ajudar a Ucrânia, militarmente, apesar da revolução de politica externa que isso representou fe-lo de forma pouco clara.

A Alemanha pretende não divulgar as armas que envia para a Ucrânia (2)  para evitar riscos de segurança.

Este secretismo contrasta com noticias em que os alemães rejeitaram propostas para vender veículos usados ou que pequenos países como a Estónia tem enviado mais ajuda militar que a Alemanha.

A verdade de toda a ajuda militar enviada pela Alemanha será algo para os livros de história. Mas este secretismo promovido pelo medo não é o que a Europa pode esperar de um líder.

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Conclusão

Não acredito numa Europa unida e forte sem a Alemanha. Mas também não acredito numa Europa unida e forte com esta Alemanha.

Scholz começou como uma imitação barata dos erros de Merckel e Companhia. Foi obrigado a mudar porque a realidade tem destas coisas… torna-se inevitável.

Mas esta Alemanha, acabada de acordar do seu coma ideológico, não parece muito desperta para os riscos e soluções que giram à sua volta.

A investimento extra de 100€ Biliões é bem vindo, mas sem saber como se vai coordenar com os parceiros europeus não sabemos se é só mais uma política para satisfazer eleitores alemães.

Por outro lado, os alemães parecem estar a agir mais pela pressão dos seus pares europeus do que pela sua capacidade de liderança.

Uma coisa é certa. Deste episódio sai não só a incapacidade de liderança da Alemanha como a sua hipocrisia na relação que estabelece com os seus vizinhos europeus.

Bibliografia

1 - https://www.aa.com.tr/en/europe/germany-exported-military-equipment-to-russia-despite-embargo-report/2539421

2 - https://tass.com/world/1421989?utm_source=google.com&utm_medium=organic&utm_campaign=google.com&utm_referrer=google.com

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